terça-feira, 1 de maio de 2018

Um texto pedagógico



Retomo o artigo de JORGE WEMANS, de que coloquei, no texto precedente do meu blog, apenas o seu início, e agora reponho na totalidade. Parecendo-me um discurso ético, sereno e nobre nas suas premissas, achei que nos serve a carapuça e nos poderia ensinar ou fortalecer – se o quiséssemos - preceitos de respeito e educação que atropelámos, numa tal doutrinação sem eira nem beira, ou seja, sem doutrina pedagógica que, apoiada em alvares preceitos de liberdade sem contenção, se permite macular as normas ao menos do bom senso, já que a indisciplina trazida com a imposição da democracia, tudo levou de raso, sem lei nem roque. Eu também cliquei para a Sic, na altura das várias reportagens, mas nunca me demorei aí, na repugnância pelo alarde patenteado no interrogatório severo ou cínico, de "justiceiros altivos", esfacelando, na sua posição de carrascos impunes e brejeiros, as mais elementares regras de civismo e educação, ainda que para pessoas também atropeladoras dos normais preceitos éticos… Não julgara possível tal espectáculo, apesar da liberdade a todos os ventos, instituída há 44 anos, entre nós, os do dorso curvado ante o poder, a que nos habituaram as discrepâncias sociais, desde sempre instituídas, neste país pequenino, de hábitos consuetudinários.
Ao texto de J.W. seguem-se alguns comentários de apreço, fortalecedores da nossa esperança no efeito positivo que esse e outros textos poderão ainda ter, sobre nós, os, realmente, "da mansarda”, sem ofensa para Álvaro de Campos.

OPINIÃO
A insustentável leveza dos filmes do senhor procurador
Não me recordo de ter assistido, em democracia, a tão repugnante entrega do papel do jornalista a procuradores e juízes.
JORGE WEMANS
PÚBLICO, 28 de Abril de 2018, 6:43
Só a impunidade soprada pelos ventos de populismo que assola a Europa pode explicar o que tenho ouvido e lido como defesa da “grande reportagem” da SIC construída com base nos filmes dos interrogatórios dos arguidos do processo Operação Marquês. Não encontro outra explicação. E o que vejo assusta-me.
Vamos por partes.
1. A tal “grande reportagem” que a SIC montou com a divulgação dos filmes dos interrogatórios tem zero de investigação própria e nada de factos novos. O seu roteiro segue o discurso da acusação e a dita reportagem não é mais do que a ilustração dos milhares de páginas em que aquela se deu a conhecer. Ou melhor dizendo: os milhares de páginas impressos como certificado de tudo quanto sobre o caso já tinha sido tornado público pela via de flagrantes e repetidos atropelos ao segredo de justiça.
A suposta reportagem da SIC, entre outros atropelos éticos que não vêm agora ao caso e que não têm que ver com o segredo de justiça, rebaixa-se ao hediondo de substituir o preceito deontológico de “ouvir todas as partes com interesses atendíveis na matéria” pelos filmes em que os arguidos respondiam ao interrogatório policial. Ou seja, para simular que respeitava aquele dever deontológico, a SIC “foi ouvir” os acusados defenderem-se das acusações por ela lidas e ilustradas a partir do texto da acusação através... do próprio interrogatório a que foram submetidos! Não me recordo de ter assistido, em democracia, a tão repugnante entrega do papel do jornalista a procuradores e juízes. Total confusão de papéis, completa mistura de planos e violação declarada dos deveres para com os acusados e para com o público. Não estou a falar de lei, estou a falar de deontologia jornalística.
Divulgar à exaustão e sob a capa de peça jornalística imagens captadas durante interrogatórios só pode resultar da procura de audiência a todo o custo, ou da vontade de incentivar o desejo de realizar justiça pelas próprias mãos.
2. Pior do que esta “grande reportagem” com guião e imagens extraídos dos processos realizados por quem conduziu a investigação foi o desagrado que ela provocou na atual procuradora-geral da República. “Desagrado?” — senhora procuradora!... Claro que a ouvimos também dizer que vai mandar instaurar novo inquérito, mas essa parte era para rir, não é verdade? Quantos inquéritos já mandou instaurar desde que este folhetim da Operação Marquês começou? Nomeadamente os relativos aos crimes de violação do segredo de justiça que continuam e continuarão impunes. Alguém foi demitido, suspenso, ou incomodado? Não continuam procurador e juiz titulares da investigação impávidos e serenos sem se deixarem afetar pelos recorrentes crimes em que o seu trabalho se viu envolvido? O crime desagrada-lhe, senhora procuradora? Então, quando o condena (se foi isso que fez...), não faça logo a injunção para a necessidade de todos os operadores judiciários repensarem comportamentos nesta matéria. Ou caminhamos para regulação e legislação retroativas, esponjas branqueadoras de comportamentos imperdoáveis do aparelho que dirige?
Mas nesta tragédia de levezas alegretes à portuguesa, as cenas dos próximos episódios ainda seriam mais negras. Como quase sempre nos media portugueses, em que o que falta em matéria de informação sobra em opinião, boa parte desta veio mostrar que afinal estava tudo certo. Que a luta contra a corrupção, o desmascarar das trapaças dos poderosos, ou o interesse público se sobrepunham a tudo e a todos.
3. Sabemos quanto a corrupção de altos responsáveis políticos, empresariais, financeiros, académicos e culturais é um dos principais cancros da sociedade portuguesa e da nossa vida democrática. A Operação Marquês investigou a corrupção ao mais alto nível. Mas não há importância ou singularidade de um processo judicial que suspenda todos os direitos dos investigados, confira exceção absoluta de procedimentos legais, substitua os tribunais pelo julgamento popular, dispense a prova por existir convicção. Estes são os fundamentos do populismo que, como é sabido e é tristemente patente nesta Europa a que nos deixámos chegar, opera sempre do mesmo modo: escolhe e denuncia impasses políticos verdadeiros e problemas sociais reais; explica-os através de origens deturpadas e razões falsas; e propõe-se resolvê-los através de medidas radicais, excecionais e antidemocráticas.
Sorrateira ou explicitamente, são estes pressupostos que baseiam boa parte da opinião publicada a favor da “grande reportagem” da SIC. Não, não há nenhum “interesse público” que justifique a difusão das imagens dos interrogatórios. As expressões dos arguidos em interrogatório, o conteúdo do que ali dizem e o modo como se exprimem nada provam, nem são factos relevantes no apuramento da verdade. Só quem nunca foi sujeito a interrogatório por parte daqueles que lhe retiraram a liberdade pode supor que essa é uma situação “normal”. Mas, mesmo não a tendo vivido na pele, deve perceber que nesse contexto absolutamente excecional ninguém é como é. E, sobretudo, que ninguém naquela situação se preocupa com a sua eventual performance perante as câmaras. De resto, o populismo reinante opera também esta “confusão” entre duas coisas bem distintas: o que são as provas aduzidas pela acusação e o que são factos provados em tribunal. Nada se encontra definitivamente provado antes de este se pronunciar, ouvida a defesa e avaliadas as provas por ela apresentada. Phil Graham daria uma volta no túmulo se alguém lhe traduzisse a glosa portuguesa da sua célebre frase [1] que parece ter cristalizado neste desastre: “Os tribunais trabalham para a história, os jornalistas para o momento”!
4. Duas coisas são certas. A primeira, pouco importante e de nível pessoal: se alguma vez for sujeito a investigação policial, exigirei uma máscara antes de responder a quaisquer perguntas que me queiram fazer. Não quero correr o risco de me ver envolvido nestas cenas degradantes. A segunda, mais decisiva: a luta contra a grande corrupção em Portugal acaba de dar um gigantesco passo atrás. E, para o seu recuo, mais do que a desastrosa “grande reportagem” da SIC, contribuíram os seus alegretes defensores, exultantes com a pornográfica exibição das “provas” que reforçam as suas convicções. Minar a administração da Justiça sobrepondo-lhe o julgamento popular, substituir a prova pela convicção e retirar à vida democrática os procedimentos formais que também a caracterizam — aí está toda uma agenda para o sólido desenvolvimento do populismo à portuguesa.
1-Rascunho de uma história que nunca será completa acerca de um mundo que nós verdadeiramente nunca percebemos”

Alguns comentários:

  29.04.2018
Estou cem por cento de acordo, desde o título à última frase! Acrescentaria algo: a derivação para a ironia de mau gosto com que algumas perguntas foram formuladas. Afinal, o juiz de instrução não é o das liberdades e garantias? Não sendo de crer, apesar disso, que juiz e procurador estejam de conluio neste crime de publicitação dos vídeos, sugere-se à SIC uma reportagem sobre uma temática de envergadura maior: quem anda no MP ou na PJ a furar segredos de justiça? Oxalá a SIC tenha coragem de o fazer Não só seria um trabalho profícuo, no domínio da corrupção, como um bom furo jornalístico quando a "fonte" do processo Marquês secar ...
  29.04.2018
Parabéns pelo excelente artigo. Também não percebo como é que até agora não houve consequências para quem ganha a vida a violar o segredo de justiça e a „fazer fugir“ informações. Fazem falta responsáveis com coragem para assumir erros e construir soluções. A situação é insuportavelmente ridícula, o populismo é insuportavelmente perigos
  28.04.2018
Muito bem escrito. Subscrevo!
  Lisboa 28.04.2018
Subscrevo a indignação, e sobretudo acompanho o articulista na sua reflexão relativamente ao papel do "jornalismo" praticado por alguns dos meios de comunicação social. Ao episódio ainda haveria de acrescentar o triste papel de Ricardo Costa, qual paladino das notícias "à minha maneira e como eu digo". Triste.
  28.04.2018
 Mas a grande questão está mesmo no papel desempenhado pelos magistrados e, assim sendo, no pretendido com essa intervenção. Porque a questão da Ética e do Segredo de Justiça, essas já foram deitadas às malvas há muito tempo; precisamente por aquilo que os magistrados pretendem com tudo isto. Alguns dirão, preparar a opinião pública para a bondade - eles dizem verdade - dos seus argumentos e convicções; contudo, não é só por isso, é muito mais - visa instrumentalizar, pela contaminação, as outras áreas do poder, e assim reforçar o seu. Estamos perante um processo de judicialização da sociedade, nos quais o poder legislativo, por incúria e omissão, e o poder executivo, por demissão e indecisão, têm amplamente contribuído. Veja-se o caso da norma sobre o concurso para professores.


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