sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A voz vibrante de Passos Coelho



No meio da barafunda que ultimamente temos vivido de ataque ao PSD e sobretudo a Pedro Passos Coelho, pelos próprios do PSD - Marques Mendes até acha que Passos Coelho deu um tiro no pé, ao desdizer-se do que dantes dissera, pois já apoiara a tal TSU noutro contexto e agora que o contexto mudara já não apoiava, o que era traição aos princípios morais de seriedade que Marques Mendes acha que tem e que Passos não tem mas eu só me lembrei, ao ouvi-lo na entrevista com a Clara de Sousa, do nosso Fernão Mendes Pinto, que na sua Peregrinação contou coisas tão estapafúrdias que até o seu nome foi glosado em trocadilho: “Fernão Mentes? Minto”, tal como me pareceu, ao ouvi-lo na conversa com a Clara, que era o caso do Marques: “Marques, mentes? Minto” não por um relato estapafúrdio (perfeitamente extraordinário, embora), de aventura asiática, que o nosso clima aqui não proporciona, brando que é, e europeu, mas na saliência de bons sentimentos que por aqui, sim, abunda, que João Miguel Tavares igualmente atribui a um Silva Peneda e que as Mortáguas e Companhia também expandem, sempre soturnas e virtuosas, neste nosso clima português, propício, isso sim, à virtude embora soturna.
Mas não vou falar disso, da TSU, que me parece coisa de lana caprina ou assunto para espíritos mais esclarecidos. Na realidade, o que me deu um prazer honesto, a minha alma vibrando em uníssono - a minha alma está parva, na expressão hiperbolicamente animista da nossa amiga - foi a figura arrogantemente enérgica de Pedro Passos Coelho a informar, na sua voz bem timbrada e corajosa - que perfurou a muralha severa dos ouvidos bem formados e condenatórios dos Marques Minto da nossa história biblicamente bélica - a informar, repito, que António Costa devia entender-se com os seus apoiantes na questão da TSU, para isso fizera a coligação, era para se entender com esses e não consigo ou os seus. A TSU que apoiara divergia da TSU de António Costa, por esse motivo não a apoiava agora, para mais que o PS tinha os seus parceiros de governo, com quem se devia entender. E não consigo ou os seus, foi o que informou Passos Coelho no seu propósito esclarecedor.
Mas se não o conseguiu, temos João Miguel Tavares, a esclarecer melhor, e Francisco Assis a contribuir para a manutenção do crédito de Passos Coelho, num clima avesso à compreensão, embora o não seja à virtude soturna.
O regresso da alma Peneda
João Miguel Tavares
19 de Janeiro de 2017
Silva Peneda escreveu uma carta aberta no Diário de Notícias onde acusa Passos Coelho de estar a “ferir gravemente a identidade do PSD” por se recusar a apoiar a descida da TSU. O interesse da carta não está na acusação, que nada tem de original, mas na argumentação utilizada, que cruza uma sinopse da história do PSD com a tese de que estamos a assistir a uma traição dos “valores fundamentais” da social-democracia portuguesa. Passos Coelho, o traidor, está, segundo Peneda, a “alienar” o “património político” do partido e a promover a sua “falência”, já que a sacrossanta concertação social representa a “cultura de compromisso” que o PSD deve buscar “de forma incessante”. É caso para dizer: há certas críticas que valem mais do que mil elogios.
Vale a pena analisar a “cultura do compromisso” de Silva Peneda neste caso em concreto. Andemos dois meses para trás. A 19 de Novembro de 2016, o Expresso anunciava em manchete: “Salário mínimo de €557 em risco em Janeiro.” E justificava: “Para conseguir um acordo na concertação social, António Costa pode fasear o aumento em 2017.” Nesse mesmo dia, António Costa recorreu ao Twitter para desmentir categoricamente a notícia: “A manchete do Expresso é falsa. O programa de Governo será cumprido na atualização do salário mínimo.” Dois dias depois, o presidente do PS, Carlos César, confrontado com o protesto dos patrões, fechava a porta a qualquer negociação abaixo desse valor, numa declaração tipicamente socialista: “Não posso interpretar o que os patrões entendem. O que sei interpretar é aquilo que o Governo pretende: que em diálogo e no cumprimento do programa de Governo, seja possível o aumento do salário mínimo nas condições que nós mencionámos.” Diálogo, sim, mas nas condições impostas pelo Governo. Negociar o salário mínimo, com certeza, desde que seja 557 euros. É a isto que Silva Peneda chama “cultura de compromisso”. É esta maravilhosa “concertação social” que o PSD, terrível e despudoradamente, parece que está a trair.
Os patrões, como é óbvio, não tinham grande opção: já que o salário mínimo iria subir a bem ou a mal, aproveitaram as migalhas da TSU que lhe foram postas à disposição. Mas que a “concertação social” esteja resumida a isto, e que seja este o património que Silva Peneda acusa Passos Coelho de estar a destruir, só pode ser uma piada de mau gosto vinda de alguém para quem o Terreira do Paço é o útero do país. Razão tem Francisco Louçã: esta concertação social de 2017 parece, de facto, uma nova Câmara Corporativa. Só que o poder que ela preserva não é, como afirma Louçã, o “poder patronal”, mas sim o poder do bom e velho Estado oligárquico, para o qual Bloco e PCP também contribuem com denodo.
Chamar a isto “cultura do compromisso” é uma ofensa para a cultura e para o compromisso. Isto é tão-só a batida cultura do deixa-andar-que-assim-está-bem. É o óleo que faz girar há décadas a máquina oligárquica portuguesa, feita de respeitáveis figuras do “centrão”, como Silva Peneda. Se Passos Coelho está a levar à “falência” este “património político”, essa é uma óptima razão para gostar dele. Almas Penedas é que não – elas representam o regresso do fantasma dos natais passados, quando existia dinheiro a rodos para distribuir. Quem andava pela política nos anos 1990 e 2000 não precisava de ser competente, culto, probo ou sequer inteligente. Bastava, como os leões de pedra do Parlamento, guardar a entrada do mealheiro – e manter a pose impante da mediocridade.
As duas maiorias
Francisco Assis
19 de Janeiro de 2017
1. Com a devida vénia inicio este artigo com uma citação de Francisco Louçã. Anteontem, neste mesmo jornal, escrevia o seguinte: “A concertação social é a forma sofisticada da Câmara Corporativa, mas em vez de vénias e pedinchice ao Estado, o que, aliás, continua a fazer com garbo, mobiliza uma aura de legitimidade que pairaria sobre as instituições eleitas. É, por isso, um mecanismo para preservar o poder patronal, reclamando a força espiritual dos ‘homens do dinheiro’ e do ‘sentimento dos mercados’, nada mais do que isso. A ‘concertação’ social nem conserta nem concerta, limita-se a reproduzir o soturno direito de veto patronal, em nome da ideia de um poder social acima da esfera da deliberação pública, por exigir assentimento prévio.” Louçã não podia ser mais claro; dá provas de uma indesmentível coerência e revela uma saudável desinibição discursiva. É exactamente isto que os partidos situados à esquerda do PS pensam sobre a concertação social. Nem seria de esperar outra coisa, tendo em consideração a fidelidade que continuam a manifestar perante uma interpretação marxista da sociedade e da história.
No último fim-de-semana, a actual líder do Bloco de Esquerda deslocou-se a Berlim para, no âmbito de uma homenagem a Rosa Luxemburgo, enunciar um discurso radicalmente crítico em relação à União Europeia, acusada de todos os males possíveis e imaginários. Inspirada, decerto, pelo ambiente mental circundante, onde preponderavam os herdeiros da ditadura comunista da extinta RDA, lançou-se num desbragado ataque a tudo o que próxima ou remotamente tivesse que ver com o projecto político europeu em curso. Diga-se, de passagem, que a memória de Rosa Luxemburgo merecia melhor homenagem.
O PCP prepara-se para lançar uma campanha nacional a favor da saída da zona Euro. Para os comunistas esse constitui um novo desígnio nacional, em nome da recuperação de uma soberania monetária que consideram imprescindível para a manutenção de uma verdadeira independência nacional. Nas suas intervenções públicas, Jerónimo de Sousa não esconde a sua predilecção por um modelo económico de natureza colectivista e por um sistema de organização social baseado no primado da luta de classes.
Francisco Louçã, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa não dizem hoje coisas substancialmente diferentes daquelas que foram reiteradamente afirmando ao longo das suas vidas. Quando reclamam para si próprios o património da coerência doutrinária e política não estão a incorrer em nenhuma mentira. São estas as suas posições políticas, assentes numa representação do mundo e da sociedade fortemente determinada pela adesão ao pensamento marxista, coisa que não só não renegam, como até notoriamente exibem.
2. A polémica criada em torno do acordo de concertação social reveste-se de enorme importância, já que proporciona uma melhor compreensão da situação política presente e permite antever a principal questão que se vai colocar no nosso futuro nacional mais imediato. A primeira ilação a retirar desta crise é a de que o executivo do Partido Socialista só está em condições de assegurar em toda a plenitude a governação do país se puder contar com o apoio parlamentar de duas maiorias alternativas e contraditórias. Em tudo o que releva da restituição de rendimentos a alguns sectores específicos da sociedade portuguesa, da concessão de novos apoios sociais ou da reversão de decisões tomadas pelo anterior governo, o actual executivo pode contar com o apoio do PCP e do BE. Já no que diz respeito a outro tipo de temas, sejam eles relacionados com a política europeia, com a necessidade de resolução de graves problemas no sector financeiro ou, como agora se viu, com a concertação social, a única parceria política viável só poderá realizar-se com os partidos do centro-direita. Ora, esta realidade é de tal forma complexa que exige muito mais do que um puro exercício de equilibrismo político.
Em boa verdade, uma situação desta natureza só poderia ser correctamente gerida se um governo do Partido Socialista mantivesse uma posição de equidistância em relação aos demais partidos políticos, dispondo-se a negociar com cada um deles, em cada circunstância precisa, o apoio de que careceria para a prossecução da sua acção quotidiana. No fundo estaríamos perante o modelo, amplamente teorizado nos primeiros anos da nossa democracia, que atribuía ao PS o estatuto de partido charneira do regime.
Ora, como é por demais evidente, a opção do Partido Socialista após as últimas eleições legislativas foi de natureza bem diferente. Optou por assumir a governação do país na base de um entendimento parlamentar inédito com o BE, o PCP e o PEV e empenhou-se especialmente em proclamar o carácter verdadeiramente histórico dessa novidade política. De então para cá assistimos a uma situação deveras curiosa: o governo dirigido com inegável talento pelo primeiro-ministro empenhou-se na execução de uma política no essencial moderada, de natureza claramente pró-europeia e de tal modo rigorosa no plano orçamental que permitiu mesmo a obtenção de um défice da ordem dos 2,3% do PIB. O próprio facto de se ter sacrificado o investimento público em prol da concretização desse mesmo objectivo revela lucidez e coragem. Aparentemente anestesiados, os partidos da extrema-esquerda parlamentar foram aceitando tudo isto – que noutras circunstâncias tão violentamente teriam vituperado – recorrendo ao discurso justificativo da recuperação de rendimentos de funcionários públicos e pensionistas. Viveu-se assim num tempo da ilusão de uma coabitação política fecunda. A partir de agora as coisas colocar-se-ão de forma bem diferente.
Por um lado – e a questão da concertação social já o indicia – quase tudo tenderá a concorrer para demonstrar a profunda inconsistência da presente maioria parlamentar. Entendem-se no que é mais conjuntural, mais popular e mais fácil, rapidamente se desentendem em tudo o que é mais exigente, complexo e estrutural. É natural que assim seja, já que entre o PS e a extrema-esquerda parlamentar subsistem radicais dissonâncias políticas e doutrinárias. Por outro lado, não é crível que se possam conceber grandes aproximações aos partidos da direita, e em particular ao PSD, dado o clima de extrema animosidade que caracteriza as relações entre os dois maiores partidos políticos portugueses. Nesse capítulo há responsabilidades de ambos os lados, o que conduz a comportamentos radicais e dificilmente compreensíveis como aquele que agora o PSD se prepara para adoptar ao inviabilizar objectivamente o acordo de concertação social. É certo que o PSD poderá alegar em seu favor que não foi tido nem achado pelo Governo, e que não está disponível para um papel incompatível com a preservação da sua própria dignidade. Apesar disso, teria sido mais correcta a opção pela inviabilização parlamentar das iniciativas da extrema-esquerda, com a simultânea apresentação das legítimas razões de queixa em relação ao comportamento do Governo.
Perante isto teremos de concluir pelo seguinte: o país parece caminhar para um impasse. Na falta das duas maiorias, que seriam simultaneamente complementares e antagónicas, o Governo corre o sério risco de se instalar numa situação de paralisia. Qual a saída para tão precária situação? Por muitos custos que possa ter, não vislumbro outra que não passe a curto ou médio prazo pela realização de eleições legislativas antecipadas. Curiosamente, se elas se realizassem no curto prazo provavelmente proporcionariam ao PS a possibilidade de obter a legitimidade que agora não tem para agir, de facto, como partido charneira nesta fase da nossa vida democrática.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Um abraço a Mário Soares



Só tenho pena que não se tenha manifestado por cá, antes, contra o Acordo Ortográfico da nossa idiotia. Porque  a sua resposta ao escritor brasileiro Pedro Maciel, é bem prova da sua inteligência que ficou soterrada em entrevista, aqui, ao que parece, desconhecida, e só revelada post mortem na Folha de S. Paulo, segundo explica Nuno Pacheco.
Mais um formidável libelo acusatório de Nuno Pacheco contra os fautores do AO, ocultos por trás de quem os apoia, sem pinta de vergonha da sua opacidade, que o cronista não se constrange de denegrir, com toda a força da sua sabedoria linguística, atido ao provérbio da “Água mole”. Que Deus o proteja e nos proteja, com as suas lições magistrais sobre a língua, que os da ciência do facilitismo atrevido nem sequer, talvez, se disponham a ler, feridos nos seus pruridos académicos, feitos de ignorância, com o acompanhamento  oportunista e arrogante, àquela especificamente associado.
Quanto a Mário Soares, se não defendeu a sua língua por cá, quando devia, provavelmente vencido pelos da idiotia, a sua frase a Pedro Maciel é bem prova da sua inteligência de bon vivant que, porque morreu e é respeitado, talvez influa agora sobre os que têm por missão defender e orientar o país com respeito.
Que  o espírito de Mário Soares interceda por nós, lá no Além, apesar das suas fracas relações com o Divino, lançando para a categoria de lixo o AO89.

Acordemos, para desacordar de vez
Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa
Nuno Pacheco
19 de Janeiro de 2017

Neste Janeiro pleno de sol, eis que regressam as acaloradas discussões sobre a Língua Portuguesa. Voltou à RTP, na passada terça-feira, o magazine Cuidado com a Língua!; foi lançado um novo livro do tradutor, revisor e professor Marco Neves intitulado A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Guerra & Paz); e o PEN Clube promoveu no Goethe Institut, em Lisboa, no dia 9 de Janeiro, mais um debate sobre o acordo ortográfico (AO90). Aliás, é este último que mais promete dar que falar, com o anunciado "aperfeiçoamento" que a Academia de Ciências de Lisboa prepara e de que já foram surgindo alguns tópicos: regresso à diferenciação de "óptico-ótico" e de "pára-para", clarificação do uso dos hífens, reposição de consoantes ditas mudas (pelo menos as que permanecem no Brasil, caso de recepção-receção); ou revisão do uso dos sufixos pan- e com-. Haverá conciliação? Arriscando uma metáfora marítima, esta tentativa de "aperfeiçoamento" arrisca-se a ser vista por uns como um inadmissível rombo no navio, e por outros como o lançamento de bóias de ferro aos náufragos.
Recordando os alertas dos saudosos José Pedro Machado e Vasco Graça Moura, entre tantos outros que se cansaram de argumentar contra os perigos do "monstro" que aí vinha, é possível olhar para a tentativa da AC como a confirmação clara de um falhanço: se o AO precisa de emendas, e não serão poucas, nunca devia ter entrado em vigor no estado em que está. Os que lamentam a sorte das "pobres criancinhas" caso haja agora mudanças, deviam ter pensado na quantidade de disparates que as obrigaram a aprender para agora, aos poucos, terem de os desaprender. É por isso que os fautores do acordo não querem mudar uma só vírgula: para não ajudarem a sublinhar a sua incompetência.
É, pois, tempo de deixar a habitual lassidão portuguesa e enfrentar o problema. Que se cheguem à frente defensores e detractores do acordo, porque já chega de conciliábulos mornos. Que volte tudo à mesa, para que, "remendando" o AO ou deitando-o fora, não haja mais escolhas impensadas, baseadas em panaceias há muito desmentidas. É curioso que um defensor do AO (considerando-o, ainda hoje, "obra meritória", que "já não pode ser denunciado por Portugal, como país digno"), D’Silvas Filho, tenha publicado há dias no seu blogue e no Pórtico da Língua Portuguesa um texto onde condena, nos vocabulários ortográficos, "a sanha contra as consoantes não articuladas" por uma "obsessão no simplificacionismo. A língua é um complexo que traz consigo a herança de muitas gerações de falantes que a foram aperfeiçoando na comunicação. A língua é mais do que ortografia, mas esta tem interferência na linguagem, por exemplo, nos retornos sobre a fonia. Só se deve alterar a ortografia com pinças, com ciência, senão a fluidez da comunicação intergerações e o encanto das virtualidades da língua podem perder-se." Foi isto que foi feito com o AO90? Só um lunático responderá pela afirmativa.
Apesar da vã retórica, nenhum benefício foi ainda mostrado como resultante da imposição das regras do AO90. O silêncio dá jeito, porque encobre todo o tipo de más opções e desvarios. Mas na língua não há silêncios. Ela rodeia-nos a toda a hora, falada, escrita, viva, múltipla. Um exemplo: numa extensa entrevista que o escritor brasileiro Pedro Maciel fez a Mário Soares e que permaneceu inédita até a Folha de S. Paulo a publicar postumamente, no dia 9, a última questão foi sobre a língua. Perguntou Pedro Maciel: "Não é uma bobagem a reforma ortográfica da língua portuguesa, já que a língua é um organismo vivo, dinâmico e muda-se conforme as novas gerações?" Respondeu Mário Soares: "O que é admirável na nossa comunidade é a variedade, a riqueza e as diferentes contradições. Os brasileiros têm locuções, maneiras de escrever e de falar diferente dos portugueses que enriquecem extraordinariamente a nossa língua, da mesma forma que os africanos e os portugueses. Cada um dá o seu tributo. Eu não sou um grande purista da língua e acho que as línguas são organismos vivos e são os povos que fazem as línguas. Não sou pela uniformização, mas pela variedade e pela diversidade dentro de uma unidade."
Que siga a discussão.

Talvez não seja assim



Penso nos meus bisnetos - o Pedrinho da Ana, de seis meses, e o Nuno da Catarina, que vai nascer. E afinal, nos meus netos todos, os quatro mais novos ainda em preparação para essa vida de realização que queremos para eles, meninos que seguem, sob a orientação dos pais atentos.
João Miguel Tavares receia por eles, os filhos e netos e bisnetos, num novo mundo que não é para os novos como o mundo que foi para os mais velhos. De facto, quando vemos as gerações mais novas perderem tanto tempo da sua vida, quase desde os seus primeiros anos, agarrados a uma caixinha ou defronte a uma televisão vibrando com histórias de imaginação nas raias do impossível, criando neles gradualmente uma noção de um falso mundo de irrealidades que os vão talvez subtraindo ao decoro do bom senso, mesmo na imaginação, receamos por eles. É certo que essas caixinhas também lhes dão destreza manual e mental, nos jogos espectaculares que lhes proporcionam, mas que simultaneamente os isolam da participação sadia junto dos outros, ou até do interesse pelo conhecimento provindo da leitura que, indiscutivelmente, é a maior fonte de  riqueza espiritual que poderão ir obtendo, não só para reflectir como para disciplinar o pensamento e a ortografia. Mas o lúdico impõe-se nos nossos tempos, e a vida de relação esvai-se, ou faz-se pela caixinha, à distância, desequilibrada e falsa, de mensagens sem conteúdo e sem ortografia.
Por outro lado, os governos vão atamancando as suas políticas como podem, no sentido de proporcionar trabalho aos mais novos, mas permitindo os desmandos da trafulhice contínua, pelos egoísmos dos ambiciosos que naturalmente vão empobrecendo cada vez mais os que não têm iguais competências de absorção ávida e desonesta.
E num país como o nosso, com uma dívida crescente, de juros crescentes, sem um arranque efectivo de criação de riqueza, sempre de mão estendida a suplicar que outros nos salvem, esse descalabro de que trata João Miguel Tavares dos nossos filhos sem futuro é  bem assustador.
Mas a Terra sempre foi atravessada de convulsões, que acabaram em estabilidade durante uns tempos, em ondas contínuas de vaivém. Pensemos que esta época de incerteza será mais uma que passa. E desejemos para os nossos filhos e netos e bisnetos que cultivem o seu jardim ou a sua horta o melhor que puderem. Com esperança sempre, que é a última a morrer. E coragem, como a que nós tivemos, numa travessia de luta. Às ondas também.
Lembro uma canção brasileira - de 1947, leio na Internet - que poderia trazer um resquício de ilusão na aceitação mordaz da realidade, em vários ângulos de visão, que davam então sabor à vida, na convicção de que há sempre uma alternativa:

Pode Ser Que Não Seja
Refrão:
Nem tudo que reluz é ouro
Oi, nem tudo que balança cai!
(bis)
A moça que a gente conhece
Todo dia rezando na igreja,
Pode ser que ela seja uma santa
Mas também pode ser que não seja!
Refrão
O moço que a gente conhece
Todo dia bebendo cerveja,
Pode ser que ele seja um pau-d'água
Mas também pode ser que não seja!
Refrão
O homem que diz que não foge,
Que enfrenta sorrindo a peleja,
Pode ser que ele seja um valente
Mas também pode ser que não seja!
Refrão
A flor que nasce no mangue
E no meio do lodo viceja,
Pode ser uma flor muito pura
Mas também pode ser que não seja!

Este mundo não é para novos
João Miguel Tavares
31 de Dezembro de 2016
Em época de balanços gostava de partilhar convosco um dos artigos que mais me marcaram em 2016. Foi escrito por David Leonhardt, jornalista e colunista do New York Times, e coloca pela primeira vez números fiáveis em cima daquilo que é uma intuição partilhada por todos: a crescente possibilidade de os nossos filhos virem a ganhar menos do que nós e de as próximas gerações terem uma qualidade de vida inferior à nossa.
O artigo chama-se The American Dream, quantified at last, e essa quantificação é devastadora: na década de 40, a probabilidade de um recém-nascido americano vir a ganhar mais do que os seus pais era de 92%; a probabilidade de uma criança americana nascida na década de 80 vir a ganhar mais do que os seus pais caiu para os 50%. O jornalista do New York Times fala especificamente do desaparecimento do Sonho Americano, porque os números que tem disponíveis dizem respeito aos Estados Unidos, mas não é difícil extrapolá-los para o resto do mundo ocidental. Não sabemos se em Portugal as percentagens são aquelas, mas sabemos que a tendência é a mesma. E, tendo em conta a dimensão da nossa dívida, os nossos problemas de produtividade, o envelhecimento da população e a falta de dinâmica social, é até possível que a situação portuguesa seja mais grave.
Leonhardt retirou estes números de um estudo que recorre a “milhões de declarações de impostos que abarcam várias décadas” (após o sucesso planetário de O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, big data é a nova palavra bonita dos estudos económicos), reunidos pela equipa de Raj Chetty, professor de Economia na Universidade de Stanford. O projecto ganhou um nome e um site próprios — The Equality of Opportunity Project — e não há como desvalorizar o impacto desta terrível constatação no mundo em que vivemos. Se a tendência se mantiver — os últimos dados disponíveis reportam-se a 1985, ou seja, a pessoas que estão agora na casa dos 30 anos —, isso significa que as crianças do século XXI já nem sequer estão na linha dos 50/50, mas muito abaixo disso. O mais provável, de facto, é que a qualidade de vida dos nossos filhos venha a ser bastante inferior à nossa.
Aquele que foi o nosso quadro mental, o quadro mental dos nossos pais e o quadro mental dos nossos avós — de que, com algum esforço e algum estudo, as gerações seguintes conseguiriam com naturalidade ter uma vida melhor do que as gerações anteriores — está a afundar-se, vai implodir, possivelmente já morreu.
Claro que parte do problema está relacionada com a diminuição do crescimento económico, que dificilmente regressará aos níveis das décadas de 50 e 60. Mas a outra parte do problema está relacionada com o aumento das desigualdades e com a má distribuição da riqueza. Em 1980, Portugal cresceu 4,8%. Em 2015 cresceu apenas 1,6%. Mas o PIB per capita em 2015 é quase o dobro do PIB per capita em 1980. Este aumento deveria bastar para os nossos filhos poderem vir a ganhar mais do que nós. Se o bolo aumentou para o dobro, mas há cada vez mais gente a comer menos bolo do que antes, é porque as fatias estão a ficar cada vez mais mal distribuídas. Mal distribuídas por falta de taxação das grandes fortunas, sem dúvida. Mas também mal distribuídas por causa do peso crescente dos direitos adquiridos. Esta é uma situação profundamente injusta. Nunca nos preocupámos tanto com o bem-estar dos nossos filhos — e, no entanto, nunca como hoje fomos tão maus pais. Um feliz 2017 para todos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Vamos mas é para a Tapada



Acho que foi o que fez Sá de Miranda depois de considerar que
Homem dum só parecer,
D'um só rosto, uma só fé,
D’antes quebrar que torcer,
Ele tudo pode ser,
Mas de corte homem não é. 
Na sua quinta da Tapada, Sá de Miranda colhia ar puro e lia o Sannazaro e mais uns quantos clássicos que condiziam melhor com os seus interesses intelectuais, apreciadores de uma dourada mediania dispensadora das presunções mundanas, mais centrados aqueles nos valores literários.
Parece que António Domingues, que João Miguel Tavares preza, também prefere descansar das lides, fazer pesca e leituras mais do foro económico ou filosófico, li na Internet. João Miguel Tavares acha-o bom, porque o ouviu e deve conhecê-lo. E cita um outro caso, de um prodígio desfeito na senda emaranhada da nossa corte de agora. Zeinal Bava se chama, génio desaproveitado ou corrompido por alguém da nossa corte actual, foco de corrupção e de lamber de botas num compadrio eficaz, de enganos muitos, de inveja e intriga, como já era no antigamente do mesmo nosso “bom Sá”:
Quem joga onde engano vai,
Em vão corre, e torna atrás,
Em vão sobre a face cai.·'
Mal hajam as manhas más'
D 'onde tanto dano sai! 
Pecha antiga, pois. O que vale é que há sempre alguém, educado noutros preceitos, que pode ajudar a modificar o status. João Miguel Tavares pode ser um deles, oxalá que a presente “corte” o não mude nunca. Para bem da nação.

Um bocadinho excelente demais
Quem viu a solidez, frontalidade e bons modos de António Domingues no Parlamento não pôde deixar de concluir que ele foi uma excelente escolha para a Caixa.
João Miguel Tavares
5 de Janeiro de 2017, 5:56
Passei metade do dia de ontem a assistir à audição de António Domingues no Parlamento e fiquei ainda mais convencido de que a verdadeira razão para a sua saída é uma e só uma: António Domingues padece de excesso de profissionalismo. É como aquelas pessoas que vão a uma entrevista de emprego e descobrem que têm demasiadas habilitações para o lugar. Nalguns países, muito profissionalismo é óptimo. Em Portugal, é uma maleita, sobretudo quando se trabalha para o Estado ou em áreas onde a interacção com o Estado é muito forte. Um gestor que queira ser apenas gestor – ou seja, criar o máximo de valor para o seu accionista a partir dos recursos que tem à disposição, com independência e sem outras pressões que não os resultados financeiros – não vai longe.
Está na moda dizer mal do capitalismo. Só que o problema de Portugal é a falta de verdadeiro capitalismo. Falta gente que queira ganhar dinheiro concorrendo num mercado livre, através de decisões racionais e recursos privados. O que existe em Portugal é o capitalismo de compadrio – gente que quer ganhar dinheiro manipulando um mercado controlado, através de favores de amigos e recursos públicos. Estava a ouvir António Domingues e a lembrar-me do tempo em que Zeinal Bava era o jovem prodígio da PT, eleito melhor CEO da Europa no sector das telecomunicações em 2010 e em 2012. Não foram distinções injustas. Zeinal Bava era realmente bom. Ele fez um trabalho extraordinário na expansão do cabo, sempre a liderar na inovação tecnológica, e foi uma peça fulcral na construção do império que haveria de o engolir. “Portugal também pode ter o seu Sillicon Valley”, dizia então Zeinal, cheio de sonhos. Só que em vez de Sillicon Valley encontrou Ricardo Salgado. E a conclusão óbvia a tirar seria esta: Zeinal escolheu mal; em vez de se manter um gestor honesto e competente, optou por juntar-se ao lado negro da Força. Conclusão óbvia, mas errada. O dilema fundamental é bem mais grave do que esse. É saber se ele poderia algum dia ter feito a escolha certa e continuar a ser Zeinal Bava, o CEO da PT. A minha desolada resposta é: não, não podia. Não era possível estar à mesa dos grandes sem seguir as suas regras. Ninguém podia sonhar com um Sillicon Valley português e ignorar Ricardo Salgado.
Fast-forward para 2016: António Domingues achou que podia estar à mesa dos grandes na Caixa Geral de Depósitos e seguir novas regras. Afinal, depois da intervenção da troika, Portugal teve de mudar alguma coisa. Há mais vigilância e supervisão, logo, exige-se mais profissionalismo. Mas mudar alguma coisa não é mudar tudo. Aquilo que aconteceu na CGD, como bem resumiu José Gomes Ferreira, foi um “choque de culturas de gestão”. A entrada de Domingues “assustou a classe política”. E como disse Pedro Santana Lopes na SIC, ao lado de António Vitorino (o yin e o yang do statu quo), já era hora de Domingues “desamparar a loja”. A loja, bem-entendido, dos seus velhos amigos, que estavam a entrar em pânico com as reavaliações de activos e a nova política de acesso aos créditos de risco. É essa loja que Domingues teve de desamparar. Havia demasiado cheiro a independência no ar. E “a vida” – sábias palavras de Mário Centeno – “é o que é”. Pois é. Quem viu a solidez, frontalidade e bons modos de António Domingues no Parlamento não pôde deixar de concluir que ele foi uma excelente escolha para a Caixa. Infelizmente, no país que temos, foi uma escolha um bocadinho excelente demais.