segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Uma amável obra de história trágico-cómica



Sobre a primeira rainha portuguesa – D. Maria I.  Sobre Portugal e, de permeio, sobre movimentos europeus com reflexo neste. Espaço temporal: de meados do século XVIII ao primeiro quartel do séc. XIX.
Título:   D. MARIA I – A Vida Notável De Uma Rainha Louca.
Em epígrafe:  A história de uma mulher bondosa e frágil que viria a ser a primeira rainha de Portugal.
Autora: Jenifer Roberts (Publicado em 2009).
Tradutor da 2ª Edição, (de 2013): Edgar Rocha.
Editora: Casa da Letras

Estrutura da obra:
Uma Introdução, contendo, em epígrafe, breve retrato de D. Maria I feito pelo Duque de Châtelet em 1777:
«D. Maria I é indiscutivelmente merecedora de estima e de respeito, embora não tenha os atributos que façam dela uma grande rainha. Ninguém poderia ser mais amável, mais caridosa ou mais sensível, embora estas qualidades sejam diminuídas por uma excessiva devoção religiosa.»
Seguidamente, a narradora situa a politicamente apagada figura de D. Maria I no seu contexto histórico, revelando-a como vítima de uma época de transição entre a Monarquia Absoluta, da corte faustosa do seu avô D. João V e as ideias iluministas do tempo de seu pai – D. José, rei tímido e inerte - conducentes às políticas de dureza de Pombal – o despotismo esclarecido – tendente a abalar os alicerces de uma governação anterior, apoiada num clero poderoso, repressivo e obscurantista, refractário às  ideias de progresso,  e numa nobreza fútil, ociosa e parasitária.
Dá-nos ainda a Introdução as fontes humorísticas em que se apoiou a autora para a sua obra: a correspondência dos embaixadores britânicos em Lisboa – Robert Walpole – “o qual escreveu cartas muito elucidativas e divertidas”. “Outra fértil fonte foi o diário do marquês de Bombelles, embaixador francês em Portugal durante os anos 1786-1788, que era deliciosamente indiscreto nas páginas do seu diário privado.”
Serviria de ponto de partida para a sua personagem e “entourage” a carta de uma irmã – Philadelphia Stephens - do inglês William Stephens, proprietário da “Fábrica de Vidros da Marinha Grande”,  que relata, para um primo em Inglaterra, a visita de três dias feita pela rainha e família real a essa fábrica. Ao escrever sobre William Stephens e a sua grande fortuna, encontrou a historiadora as “memórias” do Dr. William Withering, quando este visitou a fábrica em 1793, e em que escreveu:
«O Sr. Stephens teve a honra de receber a rainha e a família real de Portugal durante três dias, em 1788. Os acompanhantes de Sua Majestade, juntamente com o vasto fluxo de pessoas dos campos em redor, formavam uma assembleia de vários milhares. Foram empregados trinta e dois cozinheiros e proporcionados estábulos para oitocentos e cinquenta e três cavalos e mulas. Para crédito da honestidade e da sobriedade dos portugueses, só se perderam duas colheres de prata de entre as sessenta dúzias que foram usadas e, embora fosse colocado vinho nos aposentos usados pelos criados, nem um único homem foi visto bêbado.»  

Estas referências introdutórias às suas fontes humorísticas, - (as outras virão na Bibliografia Seleccionada, além das citadas ao acaso da narração) - com transcrição de uma delas – provavelmente, embora de intenção sardónica, a menos comprometedora para os nossos toscos costumes de provincianismo pedante, definem o propósito da narradora, de encobrir, sob a capa da simpatia por uma pobre, embora sensível e gentil, figura de mulher, uma real intenção de acentuar o grotesco de tantos dos costumes de uma corte tacanha na sua pompa e exigência protocolar perfeitamente risíveis. Alguns exemplos o confirmarão posteriormente.

Após outros dados contidos na Introdução, segue-se a esclarecedora Árvore Genealógica sobre as famílias Bragança e Bourbon.

O Prólogocom, em epígrafe, a data «3 de fevereiro de 1792», numa estruturação circular que denuncia propósitos de arte num descritivo romanesco - põe em relevo o dia em que D. Maria I,  durante uma representação teatral em Salvaterra, enlouquece de vez – e o seu regresso a Lisboa, no bergantim real, é realizado sem pressas, no meio do  protocolo retardador, apesar da aflição geral, o seu filho de 24 anos, João de Bragança, completamente incapaz de precipitar a solução do caso, sujeitando ainda a pobre mulher sua mãe, na chegada a Lisboa, a aparecer à janela do Senado da Câmara, perante a multidão que dá vivas e mais tarde fará procissões e rezas pela saúde da sua Rainha.

Seguem-se as três partes da biografia:
A I – “Princesa Herdeira”- compreendendo  os capítulos 1-7; a II – “Poder Absoluto”; os capítulos 8-13; a III – “Uma mente frágil” – os capítulos 14 – 19. E o Epílogo.  Todos eles contendo epígrafes alusivas sotopostas, de sínteses esclarecedoras.

A obra compreende ainda, como  Apêndices - como relato histórico que pretende ser -  0 Relato da visita Real à Marinha Grande, feita por Philadelphia Stephens, de forma bastante desempoeirada, o Elenco,  (curtos dados biográficos acerca das personagens reais das famílias de Bragança e Bourbon, dos Aristocratas e Ministros do Estado, dos Padres, dos Estrangeiros), Notas, Bibliografia Seleccionada. Índice Remissivo.

Uma história transbordando simpatia por uma “Rainha Louca” - nos vinte e quatro anos finais da sua vida - de facto uma jovem que, educada em padrões de um convencionalismo exibicionista e fanatismo denunciadores de atraso, se tornou contudo uma mulher bondosa e bastante lúcida, que muito sofreu.

E as pinceladas de uma narração que acumula elegantemente traços descritivos espácio-temporais no seu enredo semeado de picardias linguísticas dos embaixadores estrangeiros, ou comentários sobre uma história de riqueza provinda do Brasil, mal aproveitada em fausto, irão seguir-se, a partir do capítulo I, com o nascimento dessa princesa (futura primeira rainha portuguesa), cinquenta e sete anos antes do narrado no Prólogo, no mesmo Terreiro do Paço, mas no palácio da família de Bragança grotescamente convencional: «De acordo com os costumes, o bebé assomou do corpo da mãe à vista de uma pequena multidão de padres, cortesãos, ministros, médicos e criados…. Assim que a notícia foi anunciada, logo se juntou uma grande multidão no Terreiro do Paço. O ar reverberava com os aplausos, com o dobrar dos sinos e com os tiros de canhão. Os coches dos diplomatas estrangeiros depressa chegaram ao palácio. «Fui imediatamente à corte», escreveu o embaixador britânico para Londres nessa mesma noite, «porque me disseram que assim era hábito e tive audiências com a família real para os felicitar. Recomendo que a carta de felicitações do rei não tarde e que seja enviada no próximo barco, pois esta corte é muito sensível a tais pormenores.»
De D. João V, avô desta criança, nascida em Dezembro de 1734, batizada, em 9 de Janeiro de 1735, com o nome de Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança - (e atrevo-me a sugerir que nesta sobrecarga de nomes estará a razão inicial da sua loucura posterior) – escreve a narradora:
«Em teoria, D. João V era um monarca com poderes absolutos. Na prática, era apenas um escravo dos sacerdotes….  O rei construía conventos e igrejas, cobria-os com mármores raros e enchia-os de tesouros: altares de ouro e prata cravejados de pedras preciosas, quadros e esculturas de Itália, bibliotecas com milhares de livros. «A sua alegria eram as procissões religiosas», escreveu Voltaire. «Quando se apegava à construção, edificava mosteiros; quando queria uma amante, escolhia uma freira».

E a história vai progredindo, com os acontecimentos que rodearam  a infância e a juventude da princesa e lhe foram marcando o temperamento e o destino:
“Tendo crescido numa corte descrita como «muito enfadonha e cheia de cerimónias» - até o embaixador britânico se referia ao “tédio excessivo do protocolo real” – Maria estava familiarizada com muitas formalidades da vida no palácio.»
«Em setembro de 1752, D. José  assinalou o segundo aniversário da sua aclamação com uma série de touradas e de óperas em Lisboa, incluindo exibições de um famoso “castrato”. «A corte», escreveu o embaixador britânico, «está totalmente ocupada com touradas, concertos e óperas, quase todos os dias da semana.»
«Três meses mais tarde, D. Maria atingiu o seu décimo oitavo aniversário, uma ocasião celebrada com um beija-mão no palácio. A princesa, que se tinha tornado alta, magra, com traços bem definidos e um sorriso caloroso, aceitou os cumprimentos dos embaixadores estrangeiros e membros da corte com uma elegância graciosa. Apesar de ter uma educação limitada – instruída por padres jesuítas, sem ênfase nos assuntos do Estado, era uma mulher feita. Falava e lia francês, a língua diplomática das cortes da Europa, sabia latim e estudava religião e teologia. Aprendeu a desenhar e a pintar com os melhores artistas do país, estudou canto com David Perez, o mestre de música italiano, e tanto ela como as irmãs sabiam “tocar bem vários instrumentos”.

A supremacia de Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro indicado por Mariana Vitória de Bourbon a seu filho D. José, “indeciso, extremamente inseguro de si próprio e com a consciência de que a sua educação fora bastante negligenciada» segundo o embaixador inglês, em breve se revelaria de extrema relevância: «Como o ministro tem o seu pé no estribo», escreveu o embaixador, em junho de 1753, «as coisas mudaram muito favoravelmente para o seu lado».
 O terramoto de 1 de Novembro de 1755 trouxe a ascensão de Pombal  e a mão pesada que se estendeu sobre o Reino, expulsando os Jesuítas, liquidando elementos da nobreza, a pretexto  de um atentado a D. José, numa sua aventura nocturna.
“Diz-se que D. Maria terá implorado misericórdia a seu pai quando as sentenças foram anunciadas, mas D. José não se emocionou com as suas lágrimas.”
Em 1760, D. Maria casa com seu tio, 18 anos mais velho, Pedro (III), irmão de seu pai, um casamento feliz, tendo concebido oito filhos, dos quais só três sobreviveram até à idade adulta.

Uma história que se vai desdobrando em dores bastantes, com a morte rondando a cada passo, nos seus próprios familiares, em que a varíola fez graves estragos, num país de repente a braços com um Bloqueio Continental imposto por Napoleão contra a Inglaterra, e a que Portugal se negou a aderir, com resultados negativos para si, uma invasão francesa que, sob conselho inglês, forçou a família real a embarcar-se para o Brasil, com D. Maria I já há muitos anos louca, mas ainda sujeita a protocolos reais, a sua morte e mais tarde o retorno do caixão a Portugal, depositado na Basílica da Estrela, após um funeral de Estado em março de 1822, com as próprias netas a ter de assistir à mudança de vestuário do corpo putrefacto e nauseabundo da sua avó.
Uma história de bastas cenas trágicas, da responsabilidade de Pombal mas com a conivência de D. José, de cenas grotescas (como a do dia alardeado em que Carlota Joaquina, destinada a D. João VI se torna núbil, ou das mesuras e genuflexões dos cortesãos e dos servidores para com a família real), história em que são bastas também as referências à má criação dos infantes, a uma Carlota Joaquina adúltera, desprezando o marido enfadonho e inútil, uma história de falsos esplendores, de muitos infortúnios, afinal.

Transcrevo, de Voltaire, um passo da sua primeira carta filosófica “Sobre os Quakers”, a  simplicidade e a educação destes, que certamente favoreceram o civismo do povo inglês, origem de um trabalho histórico que põe a nossa educação (além da inércia e desatenção dos reis para com o povo) em cheque. Poderia servir de epígrafe aos considerandos acima expostos sobre o trabalho de uma historiadora que tomou como ponto de partida para a sua obra, opiniões trocistas recolhidas  nas suas pesquisas bibliográficas :

“«Ele (o Quaker) estava vestido, como todos os da sua religião, com um fato sem pregas nos lados e sem botões nos bolsos nem nas mangas, e usava um chapéu de rebordo descido, como os nossos eclesiásticos: ele recebeu-me com o seu chapéu na cabeça e avançou para mim, sem fazer a menor inclinação do corpo; mas havia mais polidez no ar aberto e humano do seu rosto do que há no uso de pôr uma perna  atrás da outra e de levar na mão o que é feito para cobrir a cabeça

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