sexta-feira, 14 de março de 2014

Com a verdade me enganas



“Colocar o engano no centro da política” é um artigo de José Pacheco Pereira, saído no Público de 8/3, de que transcrevo a parte introdutória, que subscrevo, não podendo afirmar o mesmo relativamente à crítica à política do actual Governo, particularmente a sobre Passos Coelho. Quando Pacheco Pereira apregoa o despudor do Primeiro Ministro relativamente à verdade nula das suas frases sucessivamente desmentidas, ou à sua indiferença egoísta pelo depauperamento económico gradual da população, julgo que o próprio Pacheco Pereira usa de dolo na sua crítica aparentemente expressiva de grande sensibilidade pelo sofrimento geral, mas realmente de uma argumentação especiosa, pecando por unilateralidade, ao esconder factores justificativos da tal actuação política governativa. Armado do seu vasto saber, fascina um público leigo, mas a sua violência unilateral e despeitada não escapa às exigências de honestidade de um pensamento sem parti pris. É lamentável uma tal sanha superior, que repete afirmações sobre o oportunismo de uma juventude criada à sombra dos grupos estudantis universitários, protegidos pelos partidos políticos, que os lançam na vida política por compadrio, que merece a devoção partidária, mais do que por reais qualidades de cultura e saber.
É possível que assim seja, em muitos casos, o interesse prevalecendo à partida sobre a dedicação pelo saber, com que o ser humano se vai preparando para a vida, através dos seus estudos. O interesse virá depois. Mas ao rever tantas figuras que passaram no tablado da nossa política, mesmo as inegavelmente de superior consistência cultural, ou outras para quem o curso serviu apenas de protagonismo vaidoso e oco e nulo na governação, ou ainda outras que abusaram de truques de corrupção que reduziram o país a um pântano escorregadio, e ao ver a forma relativamente serena mas obstinada com que o Governo pretende fazer o país sair desse pântano, eu discordo das afirmações de Pacheco Pereira e acredito em Passos Coelho e no grupo que ele chefia, com a coragem de uma imprescindível hombridade. E amor pátrio também.
Eis a primeira parte do texto de José Pacheco Pereira, que, essa sim, subscrevo:

“Colocar o engano no centro da política”
Sempre escrevi contra o moralismo em política.
Não quero saber se o político A ou B engana a mulher, ou tem uma filha que esconde do público, se fez ou não um aborto, se é homossexual e está dentro do “armário”, ou se fuma qualquer droga leve, e, consequentemente minta e oculte qualquer destes comportamentos privados em público. Detesto a exposição que a comunicação social anglo-saxónica faz da vida privada dos políticos e acho inaceitáveis as teses que para aí circulam de que existe um direito natural de violar a vida íntima de um político porque ele é político, e que se confunda deliberadamente o maior escrutínio sobre aspectos da sua vida pessoal quando esta toca o espaço público, o que é aceitável, com a devassa generalizada da sua vida privada e íntima. A esfera da intimidade é para mim inviolável por regra, mesmo que possa haver limitações em certos aspectos muito restritos da privacidade. Não aceito a tese, que também circula na esquerda, de que se um político andar a fazer campanha eleitoral com a mulher isso dá direito aos jornalistas de revelar que ele tem uma amante, ou se for mulher e falar contra o aborto, não pode ter feito um aborto, ou a tese muito comum na imprensa cor-de-rosa de que, ao usar para sua publicidade a exposição do jetset, isso obriga alguém a “assumir” (como eles dizem) “namoradas” umas a seguir às outras e a não ter vida privada.
A privacidade foi uma tão difícil conquista do modo “burguês” de viver, ou seja do progresso material de muitas pessoas nos últimos duzentos anos, da sua saída do mundo asfixiante das aldeias, onde todos sabem tudo de todos, que a última coisa que quereria repor esta era em nome de uma outra aldeia ainda mais pastosa, a “aldeia global”. Privacidade é liberdade, é uma forma peculiar de liberdade que permite a cada um ter uma identidade e uma efectiva capacidade de decisão “moral”. Exige, é certo, alguma cultura e alguma riqueza material, não está ao alcance dos mais pobres, mas a defesa da privacidade é um upgrade civilizacional, como a anestesia.
Isto serve de intróito para dizer que não considero que haja necessariamente uma impregnação dos “maus” comportamentos privados na vida pública, e detesto a máquina de tornar flat os políticos matando qualquer espessura psicológica que não suporte a pressão para a exposição total. Churchill não aguentaria um mês com os critérios de exposição moralista actuais, mas Hitler tinha uma vida privada sóbria e frugal. Já é outra coisa falsificar um currículo para anunciar títulos académicos que não se tem, usar de bens e recursos públicos para se “pagar” a vida que se tem, quando ela é mais complicada, assumir comportamentos pré-criminosos ou socialmente inaceitáveis como seja a violência doméstica. E, claro e como é óbvio, aceitar a corrupção.
Feita esta fronteira, há uma discussão sobre a moralidade em política de outra natureza e penso que ela é crucial nos dias de hoje. É quando a imoralidade, a mentira, o engano, o desprezo pelas pessoas comuns, o fácil pisar dos mais frágeis, torna a decência mínima que a política deve ter em democracia, um bem precioso e a indecência um veneno quotidiano.     …………….»

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