sábado, 1 de outubro de 2016

Fazer da fraqueza força?


Ao procurar o artigo do Público de Jorge Almeida Fernandes para o transpor sem esforço, coisa que não consegui, tendo que o copiar, encontrei uma tradução brasileira do New York Times que pude transportar directamente e adaptá-lo ao português de cá. Eram ambos sobre o tema assustador dos ensaios nucleares com que se diverte Kim Jung-un, tal Nero contemplando as chamas do incêndio de Roma, por ele mandadas atear e poetando, segundo extrapolação do filme “Quo Vadis?”.
Cá longe, os analistas políticos entretêm-se a demonstrar a racionalidade das acções criminosas de mais um promissor bandido da craveira de outros bandidos que passaram, com fleuma e sabedoria, para nos irmos adaptando à nova hecatombe – genocídio será mais provável, que se prepara, as duas potências, EUA e China, trocando salamaleques  e olhando-se de soslaio, enquanto Kim se rebola no gozo antecipado das suas potencialidades atacantes e defensivas, de ensaios, por agora, destrutivos e poluentes, sem dúvida, rindo, entretanto, da partidinha que está pregando aos grandes.
Eis os textos, o de Jorge Almeida Fernandes uma boa análise da engrenagem em que se movem as forças responsáveis pelos comandos do mundo:

PARA ANALISTAS, COREIA DO NORTE NÃO É LOUCA, MAS COMPLETAMENTE RACIONAL
MAX FISHER
DO "NEW YORK TIMES"
14/09/2016  
A Coreia do Norte é irracional? Ou só finge ser? Ameaças de guerra, ataques ocasionais contra a Coreia do Sul, líderes excêntricos e propaganda exagerada são alguns dos motivos dados pela Coreia do Norte para suscitar essas perguntas.
Com o avanço do seu programa nuclear e de mísseis, com um quinto teste nuclear na semana passada, essa preocupação tornou-se mais urgente.
Mas cientistas políticos vêm repetidamente considerando essa questão e, na maioria das ocasiões, chegam à mesma resposta: o comportamento da Coreia do Norte, longe de insano, é completamente racional.
A beligerância que o país exibe, concluem, parece calculada para manter no poder um governo fraco e isolado que de outra forma sucumbiria às forças da História. As suas provocações geram tremendo perigo, mas evitam o que Pyongyang vê como ameaça ainda maior: uma invasão ou colapso.
O cientista Denny Roy escreveu em 1994, num artigo académico que continua a ser citado, que a reputação do país como "Estado louco" e "insensatamente violento" havia "funcionado em benefício da Coreia do Norte", bloqueando as acções de inimigos mais poderosos. Mas essa imagem, concluía ele, era "em larga medida um produto de incompreensão e propaganda".
De muitas maneiras, isso é mais perigoso do que a irracionalidade. Embora o país não deseje guerra, o seu cálculo estratégico leva-o a cultivar o risco constante de um conflito – e a preparar-se para evitar uma derrota, caso a guerra aconteça, potencialmente pelo uso de armas nucleares. Esse é um perigo mais sutil, mas ainda assim grave.
Por que é que os analistas acreditam que a Coreia do Norte é racional? Quando os analistas políticos definem um Estado como racional, não estão dizendo que os seus líderes tomam sempre as melhores decisões, ou decisões moralmente corretas, ou que eles representem exemplos de estabilidade mental.
Em lugar disso, estão afirmando que o Estado se comporta de acordo com aquilo que vê como seus interesses, o primeiro dos quais é a autopreservação.
Quando um Estado é racional, ele nem sempre encontrará sucesso em termos de agir de acordo com os seus melhores interesses, ou de equilibrar metas de curto e de longo prazo, mas pelo menos tentará fazê-lo. Isso permite que o mundo direccione os incentivos de um Estado, conduzindo-o na direção desejada.
Os Estados são irracionais quando não seguem o seu próprio interesse. Na forma "forte" de irracionalidade, os líderes são tão lunáticos que se mostram incapazes de determinar quais são os seus interesses. Na versão "branda", factores domésticos tais como o zelo ideológico ou disputas internas pelo poder distorcem os incentivos, fazendo que os Estados se comportem de maneiras contraproducentes mas ao menos previsíveis.
As acções da Coreia do Norte, embora repulsivas, parecem servir bem ao seu interesse próprio racional, de acordo com um estudo publicado em 2003 por David Kang, um cientista político que hoje lecciona na Universidade do Sul da Califórnia.

A racionalidade norte-coreana
Público, 18/ 09/2016
«Kim Jong-un aposta na crescente tensão entre os Estados Unidos e a China para garantir a impunidade do seu programa nuclear. Mas corre riscos se a China for forçada a rever a sua política.»
quinto ensaio nuclear norte-coreano, no dia 9, foi também um teste aos limites da capacidade de resposta dos Estados Unidos e dos vizinhos, incluindo a China. Oirracional” Kim Jong-un e seus conselheiros fizeram uma jogada “racional”, explorando a brecha crescente entre os EUA e a China para aumentar a desconfiança entre eles e garantir a impunidade do seu programa nuclear. É por aqui que tudo parece passar.
As “sérias consequências” prometidas por Washington e mais sanções não são o que neste momento travará a Coreia do Norte.  Nem a ameaça (não oficial feita por Seul, anunciando um plano de ataque preventivo para “arrasar Pyongyang” em caso de eminente ameaça militar, nem sequer um debate sobre um programa nuclear sul-coreano. Pyongyang apostou em que a China ficaria muito irritada mas nada faria de drástico.
Na cena internacional não há uma única “racionalidade“ mas várias e em conflito. “A Coreia do Norte pensa que as armas nucleares a tornam mais segura. É um erro” escreveu o analista norte-americano Victor Cha. Lembra a declaração “franca” de um diplomata norte-coreano durante as negociações com os Estados Unidos em 2005: «A razão por que vocês atacaram o Afeganistão é que ele não tinha armas nucleares. Por isso nunca abdicaremos das nossas”.
 A lógica norte-coreana tem como objectivo a sobrevivência do regime dos Kim e quer agora impor o reconhecimento do seu estatuto de potência nuclear como o Paquistão.

Estados Unidos
Washington contra-argumenta que é o programa nuclear o que mais ameaça a sobrevivência do regime norte-coreano. Tem boas razões para o querer travar: … Tolerar o seu estatuto nuclear incentivaria mais Estados a violar o tratado da não proliferação. Depois, é uma ameaça a aliados, como a Coreia do Sul e o Japão. Por fim, a Coreia do Norte não é o Paquistão e o seu regime totalitário não é fiável.
Relatório de um almirante americano:
«A Coreia do Norte constitui um incrível perigo para toda a região. Num futuro não muito distante pode colocar os Estados Unidos continentais sob a ameaça dum míssil balístico intercontinental com uma ogiva nuclear. Não se trata apenas da segurança dos aliados”.
Que fazer? Incentivar a China a assumir as suas responsabilidades.Com uma liderança chinesa, a desnuclearização da Península da Coreia pode ser resolvida e sem ela caminhamos para uma situação muito perigosa.
O relatório não recomenda a “mudança de regime” e propõe que os Estados Unidos dêem garantias à China de que “não têm intenção de alargar ao Norte o que estão a fazer no Sul”. Frisa: “A mais importante relação bilateral no mundo para os próximos 50 ou 100 anos é a relação entre a China e os Estados-Unidos.”

China:
Em 2003, o Presidente chinês Hu Jintao , cortou o fornecimento de petróleo à Coreia do Norte por três dias. Forçou Pyongyang a negociar com os americanos. Pequim mostrou a sua capacidade de “persuasão” embora as conversações tivessem falhado. Hoje, o Presidente Xi Jimping parece paralisado num dilema.
Chineses e americanos partilham a oposição ao nuclear norte-coreano. Mas têm estratégias e temores diferentes. Washington e Seul dão prioridade à desnuclearização da península. Pequim dá prioridade à estabilidade da Coreia do Norte. Só a China pode impor sanções drásticas, que se poderão tornar “fatais” se levarem à desestabilização, ou, caso limite, à implosão do regime dos Kim.
Pequim teme duas coisas: primeiro, uma incontrolável massa de refugiados no seu território; segundo, e sobretudo, o risco de Seul e Washington intervirem no Norte, até por razões de segurança nuclear, e chegarem à sua fronteira. A Coreia do Norte é, para os chineses, o Estado-tampão perante os americanos. As tropas e bases americanas na Coreia do Sul estão lá para a proteger do Norte. Mas Pequim vê-as como força para “conter” a China.
Uma “reunificação catastrófica” alteraria profundamente as relações de forças na Ásia Oriental. Mesmo uma reunificação pacífica, que faria da Coreia do Norte uma nova grande potência asiática, económica e militar, não agrada aos americanos, aos chineses e aos japoneses. E seduz cada vez menos os próprios sul-coreanos.
O teste nuclear de Janeiro passado cimentou a aliança entre Washington, Seul e Tóquio. Pior para Pequim: levou a Coreia do Sul a pedir a instalação de defesa antimíssil THAAD. Houve um acordo de princípio em Julho. A China encara isto como uma grave ameaça à credibilidade da sua dissuasão nuclear e já reagiu contra Seul.
O dilema de Xi Jinping é evidente: quer “estabilidade”, masd a corrida nuclear norte-coreana está a tornar-se no mais grave factor de instabilidade na Ásia Oriental e pior a cimentar uma aliança hostil à China.

Coreia do Norte:
O quinto teste marca um salto no conflito. A aceleração do programa nuclear de Kim põe em causa a tese chinesa de que se trata de uma “questão bilateral” entre americanos e norte-coreanos. Essa tese valia enquanto o programa era visto como embrionário, bluff e meio de chantagem diplomática. Se os americanos o passam a encarar como uma ameaça directa à sua sobrevivência, Xi terá de repensar o seu dilema.
O teste foi mais um desafio de Pyongyang à China, forma de mostrar que rejeita a sua tutela. “Os norte-coreanos são ferozmente nacionalistas e detestam ser vistos como “província tributária da China”, escreveu o sinólogo Minxin Pey. A ameaça da Coreia do Norte não deriva da sua força mas da sua fraqueza – o risco de “caos”.
Washington deixou de fazer da renúncia ao nuclear uma condição prévia para a negociação. Mas Pyongyang exige que a negociação seja sobre toda a Coreia e não apenas sobre a desnuclearização do Norte: quer anular a protecção nuclear americana no sul. É um ponto fraco da estratégia de Kim: menosprezar a reacção da Coreia do Sul.
Frank Perry, antigo secretário de defesa de Bill Clinton, pensa que é demasiado tarde para forçar Pyongyang a abdicar da arma nuclear. Observa Snyder: «Se o desenvolvimento de armas nucleares se tornou a ferramenta central para a família Kim justificar a sua perpetuação no poder, a desnuclearização é apenas possível como produto de uma mudança de regime; a única alternativa à mudança de regime é a aceitação da Coreia do Norte como um Estado dotado da arma nuclear. Tal é a escolha estratégica que a Coreia do Norte põe aos EUA e seus aliados.»

Compreende-se assim a tese de Mike Mullen: a única forma de mudar as peças no tabuleiro passaria por uma nova relação entre Washington e Pequim. Aqui, entramos em «terra incógnita».

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Bom senso precisa-se. E bom gosto


Os Estados Unidos da América são realmente uma poderosa nação, de muitos milhões de pessoas, que até se dão ao luxo de aceitar nas suas hostes – e talvez de o promover – um candidato com a espessura mental do seu Trump, espessura alimentada pela imensidão de dólares que tornou o seu espírito imune a quaisquer outras investidas espirituais, até mesmo as da boa educação. Não estávamos habituados a tanta elementaridade de um comportamento absurdo, por descontrolado, inexplicavelmente apoiado por – ver-se-á - metade ou talvez mais, de uma população seduzida pelo ouro do guerreiro que a torna indiferente às grosserias da sua actuação. Isso nos faz pensar na similitude dos comportamentos humanos quer se trate de países poderosos quer de países de ínfima projecção como o nosso, que aceitámos, como candidato presidencial, um Tino de Rans apalhaçado, a botar uns discursos cheios da energia popular da reivindicação esmoler fácil de captar e de aceitar por um povo de tristeza e de pagode.
As perfídias de Trump, Teresa de Sousa as descreve, com o seu saber e lógica habituais, defendendo a candidata Clinton, com um empenhamento feito de conhecimento das políticas mundiais, que assentam nos Estados Unidos, como força motriz no comando das nações. Será disso que os americanos estão fartos para escolherem personagem tão caricata? De resolver problemas alheios, sacrificando os próprios filhos? Mas isso os tornou poderosos, indispensáveis para resolver conflitos que eles, de resto, ajudaram, tantas vezes a criar.
Mas é assim que gira o mundo. Talvez Trump queira mudar isso. Daí, ter abolido os convencionalismos do politicamente correcto. Que Deus nos acuda. Estamos habituados a presidentes estadunidenses com o seu aprumo próprio que lhes vem também da consciência do seu poderio no mundo. O próprio Obama, afável e risonho no seu país, quando desce à Europa, mantém um perfil de superioridade comprovativo dessa consciência do poder.
Um Trump na Europa como será? Mas talvez ele não queira descer à Europa, quando os seus poisaram na Lua  e tão longe mais …
Como combater o populismo?
Público, 18/09/2016
1. Durante uma semana a pneumonia de Hillary apoderou-se da campanha para a Casa Branca. Deu jeito a Donald Trump, que passa a vida a dizer que a sua adversária está doente. Como é seu hábito, vai repetindo uma ideia sem qualquer sustentação, até conseguir que ela crie desconfiança na opinião pública. A questão é outra: por que razão toda a gente quer discutir a pneumonia de Clinton como se fosse a coisa mais importante na escolha de um Presidente? O primeiro argumento não é sobre a gravidade da doença. É sobre o facto de a candidata não ter revelado imediatamente que estava com pneumonia. Ela própria já veio dizer que achou que podia ultrapassar o seu estado de saúde sem deixar a campanha. Bill também já veio pedir desculpa por ter dito que a sua mulher estava apenas constipada. Esta obsessão pela transparência total, muito politicamente correcta, mas também bastante estúpida, afasta a opinião pública daquilo que realmente interessa. É essa, aliás, a estratégia de Trump, que, por sinal, mente dia sim, dia não. Mas o facto é que as sondagens voltaram a apertar o intervalo entre Clinton e Trump. A campanha de Hillary está tudo menos descansada. O próximo desafio são os debates televisivos em que a grosseria e o primarismo de Trump criam um clima inóspito para outro tipo de linguagem e de discurso. O problema de Hillary, escreve Gerald Seib no Wall Street Journal, é o mesmo que levou à derrota os 12 candidatos que disputaram as primárias contra Trump. “Como se corre contra um candidato tão fora dos padrões habituais, tão duro e tão brutal?” Aconselha Hillary a não entrar num combate directo. “Quando Rubio e Cruz decidiram entrar num combate de facas com Trump, acabaram cortados às fatias”. Clinton corre esse risco.
A novidade seguinte foi o inesperado reconhecimento de que Obama tinha nascido, mesmo, na América. Há quatro anos, Trump exigiu que apresentasse a certidão de nascimento. Mas o candidato republicano não faz nada que possa beneficiar o adversário. O que se seguiu foi a insinuação de que tinha sido Clinton há oito anos, nas primárias, quem primeiro levantara a questão. Como é que se responde a uma insinuação destas? É difícil e obriga a adversária, tal como a pneumonia, a desgastar-se em questões de pura chicana política mas que vão fazendo mossa. Ontem, a certidão de nascimento já tinha sido substituída por outro facto, ainda mais grave. Trump desafiou Clinton a tirar as armas aos seus guarda-costas para ver o que aconteceria. Mais uma vez, avança com a insinuação de que lhe pode acontecer alguma coisa. Mais uma vez a distracção perfeita para desestabilizar a campanha da sua adversária. Cortar às fatias, como diz o Journal. Como se sai disto?
2. O lado mais importante das últimas semanas é, no entanto, o programa económico que Trump apresentou, com os condimentos necessários para agradar quer ao eleitorado republicano, quer ao democrata. Trump anunciou que uma das suas principais medidas será uma redução drástica dos impostos, muito ao gosto republicano. Prometeu 4,4 triliões de dólares, depois de ter começado por prometer 10 triliões. A segunda, muito democrata, é “rebobinar” a globalização, devolvendo à América os empregos que andou a exportar para a China ou para o México. Como? Por exemplo, aplicando tarifas de 35 por cento às importações mexicanas e de 45 às chinesas. Como lembra a BBC, um televisor de 100 dólares passaria a custar 135. Quem pagava a factura? A classe média, naturalmente. E lá se ia a poupança nos impostos. O mesmo em relação aos acordos de livre comércio, que quer rasgar ou, na versão mais actual, renegociar. Mas com uma só condição: “a América tem de ganhar”. E os outros perderem? É óbvio que responderão com o mesmo aumento de tarifas para as importações americanas. Quem fica a ganhar? Ninguém. Mas uma parte substancial dos eleitores aceita o que ele diz sem precisar de detalhes. A cereja em cima do bolo foi a promessa de criar em 10 anos 25 milhões de empregos. Parece muito mas não é. Bill Clinton criou em oito anos 22 milhões de empregos e conseguiu transformar o défice em excedente orçamental. É verdade que isso aconteceu noutro tempo. A economia americana, depois de um período de recessão, estava já a inverter o ciclo. A entrada em cena das novas tecnologias foi mais um forte impulso ao crescimento. Mas a verdade é que a economia americana já está hoje a criar perto de 2,5 milhões de empregos por ano, que, multiplicados por dez, chegam à promessa de Trump. Como lembrava Paul Krugman na sua coluna do NYT, os dados da economia americana que acabam de ser revelados provam que a política económica de Obama não foi assim tão má, ainda que esteja nos antípodas de Trump. O desemprego está em valores que rondam os 5 por cento, o rendimento médio das famílias aumentou num ano 5,2 por cento. A economia ganha balanço. Ou seja, se Trump tem um plano para a economia, não será difícil a Clinton apresentar o seu. Até agora, a candidata tem cedido, aqui e ali, à pressão do populismo e ao eco que tem em partes muito significativas do eleitorado. A sua posição é difícil. É fácil dizer que se acaba com todos os acordos de livre comércio internacionais, é difícil explicar às pessoas quais seriam as consequências. É fácil prometer descer impostos, mais difícil garantir que os estímulos à economia não podem ser apenas feitos para beneficiar os mais ricos. A Trump, basta-lhe dizer que um país “que ganhou duas guerras mundiais e pôs um homem na lua” pode tudo. Uma parte dos americanos parece acreditar. Trump explora uma raiva imoderada às elites e ao modo como Washington funciona. Uma recente sondagem do Washington Post indicava que era visto pelos eleitores como o pior candidato em matéria de política externa, mas o melhor para destruir o sistema disfuncional de Washington. Do qual Hillary é um exemplo perfeito ao olhos de muita gente.

3. Hillary tem hoje um peso enorme sobre os ombros. Uma boa parte do mundo espera que ela ganhe as eleições porque não saberia o que fazer caso Trump viesse a ser eleito. Mas considerar a NATO uma organização obsoleta, dizer à Coreia do Sul e ao Japão que, se se querem defender da Coreia do Norte, construam as suas próprias armas nucleares em vez de viver a expensas dos EUA não é de molde a tranquilizar ninguém. A não ser aqueles que apostam no enfraquecimento da América. Quando Trump elogia Putin e o desafia a piratear os mails de Clinton, está tudo dito. Clinton chegará à casa Branca com uma experiência e uma preparação de que poucos presidentes se podem gabar. Conhece o mundo inteiro, negociou com o mundo inteiro. Preparou-se para este lugar toda a vida, esperando pela sua vez. Falhou em 2008 porque teve de enfrentar um candidato excepcional. Não pode falhar agora, quando tem de derrotar um populista com preparação zero e com um programa que seria fatal para o poder americano. Joschka Fischer, anterior chefe da diplomacia alemã, dizia numa conferência em Londres que nunca, mas nunca, acreditou que o “Brexit” pudesse alguma vez acontecer. Devemos temer o pior? Para a Europa seria um desastre. Para o mundo seria uma enorme incerteza. Estamos a falar da única superpotência mundial da qual depende, em grande medida, a nossa segurança e a segurança do mundo. É aqui que sentimos um calafrio. Boa sorte para Hillary, é tudo o que podemos desejar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Uma alegre viuvez


Um artigo de um jornalista que não desiste de querer para o seu país uma consciência cívica que arrume com tanta penúria dela e esse facto é algo reconfortante para quem vai envelhecendo “olhando para trás de si” - olhando em torno de si - “e tendo pena”, mas sempre esperançada numa retoma de valores, que jovens e menos jovens vão revelando, tentando desassombradamente desemaranhar a vasta teia de desmandos a que na sua profissão ou nos seus estudos terão algum  acesso. É o caso deste «Sócrates e os seus viúvos», de João Miguel Tavares - um Sócrates que vai estrebuchando, nadando nas vastas águas indecisas da aceitação pública, que acaba sempre por lhe ser fiel, por conveniência própria dos comparsas, apesar das tentativas justiceiras de uma eterna desmistificação das suas embrulhadas soezes.
E retenho a frase de Sócrates, não o nosso mas o que viveu entre 470 – 399 a. C, numa Grécia pioneira, frase que encima propositadamente a mesma página do artigo referido, e que demonstra como os princípios são “escritos na pedra” para sua eternidade, para serem seguidos por uma Justiça isenta. «Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente».  
A verdade é que os  nossos “super-juízes” que se pretendem isentos, não passam de  patéticas amostras de uma falsa manipulação dessa isenção, na indignação aparente  e vaidosa que esses casos lhes provocam, demonstrada no queixume irónico pueril de um seu representante, em entrevista longamente debatida. Não julgo, pois, que resultem, artigos como este de João Miguel Tavares, numa tessitura social tão extraordinariamente balofa:

Sócrates e os seus viúvos
17/09/2016 - 00:10
Neste país respira-se muito melhor do que em 2008 ou 2009, mas as contas dos anos Sócrates ainda estão por fazer.

Toda a gente pergunta como é possível a investigação a José Sócrates estar a demorar tanto tempo. É muito fácil de explicar. Em primeiro lugar, porque o poder político em Portugal nunca se mostrou realmente interessado em combater a corrupção. As leis que regulam o seu combate são péssimas para os polícias e excelentes para os ladrões. Em segundo lugar, porque aquilo que o Ministério Público está a investigar não é uma simples ocorrência, um acto de corrupção, mas sim um método de agir em inúmeros negócios, o que são coisas completamente diferentes. Estamos a falar na possibilidade de Sócrates ser o maior criminoso político da História da democracia portuguesa, coisa que não parece impressionar por aí além todos aqueles que acham mais graves as indirectas de Carlos Alexandre do que as explicações ridículas de José Sócrates sobre a origem do seu dinheiro.
Sócrates dá entrevistas e escreve depoimentos a queixar-se de que o Ministério Público primeiro andava a investigar o favorecimento do grupo Lena, depois o empreendimento de Vale do Lobo e que agora já está na PT. Que é como quem diz: o Ministério Público não encontrou nada e anda desesperado à pesca de qualquer coisa. Estranhamente, ou talvez não, nem José Sócrates nem os seus muitos amigos que continuam espalhados pela política, pelas empresas e pelos jornais admitem a hipótese de não ser “isto ou aquilo”, mas sim de ser “isto e aquilo”. Não se tratam de conjunções alternativas, mas de conjunções copulativas: é o grupo Lena, é Vale do Lobo e é a PT. Como antigamente era a Cova da Beira, era o Freeport e era o Face Oculta. Não há aqui nenhuma novidade. Há muito que muita gente alertava para o percurso, para a postura e para as tentações de José Sócrates. Esta investigação é apenas a confirmação de um infindável rol de suspeitas em relação às quais ele sempre se justificou com os mesmos adjectivos canalhas que continua a utilizar. 
É verdade que o Ministério Público podia ter optado por avançar com uma acusação de fraude fiscal e branqueamento de capitais, para a qual já deve ter prova suficiente. Os investigadores quiseram ser mais ambiciosos e não deixar cair a corrupção – que é obviamente o que está em causa, mas que, se fosse fácil de provar, há muito que dezenas de políticos estariam presos. Não é. A lei portuguesa faz distinções obscenas, como a corrupção para acto lícito e para acto ilícito, apenas para facilitar a prescrição dos processos, e de cada vez que se fala na hipótese da delação premiada, sem a qual jamais haveria operação Lava-Jato, ou na criminalização do enriquecimento ilícito, há mil vestes que se rasgam – as mesmas que depois se queixam dos “casos” e dos “negócios” que morrem nos tribunais.
Neste país respira-se muito melhor do que em 2008 ou 2009, mas as contas dos anos Sócrates ainda estão por fazer. Na política e nos jornais, os seus viúvos continuam por aí, e o número de textos que escrevem a criticar o Ministério Público é proporcional ao número de textos que não escrevem criticando o comportamento de Sócrates ou os anos que levaram a apoiá-lo. Em nome de belos princípios, limitam-se a defender os seus almoços e as suas opiniões entre 2005 e 2011, fazendo todos os dias figas para que a investigação falhe redondamente. A derrota do Ministério Público seria para eles a vitória dos seis anos de mediocridade e autoritarismo que nunca se cansaram de patrocinar. O destino de Sócrates apenas lhes interessa porque é também o seu.