quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Companheirismo linguístico-fónico




O título - «Escrita irritada pode ser delicada»  - chamou-me a atenção para o confronto entre os seus dois adjectivos, que geralmente se contrapõem embora haja os indivíduos educados nas boas maneiras que expandem as suas irritações com extrema cordialidade e, diria mesmo, nobreza de atitude, o que muitas vezes envergonha o parceiro e o fazem desistir da sua luta. Suponho que João Cidreira Lopes pretende isso mesmo, ele que foi professor de línguas, talvez muitas, e por isso não se lhe dá que elas sejam escritas ou pronunciadas mais correctamente ou menos – à balda e fé em Deus, como se costuma dizer - já que, como as suas línguas de professor foram ensinadas no estrangeiro, a ninguém teve que prestar contas do seu desempenho linguístico escrito nem fonético. Que lhe importava, pois, ter os alunos no engano, “ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?”, como clamava o pobre Adamastor à perversa Tétis, «nada» devendo ser a resposta, para mais que a sua tese peca por umas tantas incongruências.
 Exemplificando na questão destas,  diz ele que “gostou de ler a crónica de Gastão Cruz”, tendo definido este como “apreciado poeta e crítico literário”, aceitandoque se irrite e ache inútil” o tal AO, e considerando a sua crítica “muito bem fundamentada”, de acordo com o “conhecimento de que dispõe sobre o acordo.”
Por aqui se vê que o seu conhecimento – dele, Cidreiro Lopes – é superior ao de Gastão Cruz que só referiu no AO aspectos negativos”, ignorando “tudo o resto”, que a ele, C.L., não foi alheio, e lhe competirá esclarecer, ou seja, os aspectos positivos do mesmo, embora ele – C. L. - entenda que, na situação de G. C. – ex-colega que ele bem conheceu e preza, no desempenho cultural – talvez pensasse “da mesma forma”, só que com “menos violência”, o que comprova a sua perfeita educação – dele, C. D. - bem contrária à do irritadiço G. C.. Assim, enquanto este é dado às escritas, aquele, C. L., é um simples “anónimo” que “nunca escreveu para publicar”, segundo afirma – o que é falso, como este seu escrito comprova – conquanto não se me dê de pensar que no seu trabalho docente fosse verdadeira a asserção, vendo-se que lidou sobretudo com as oralidades do mesmo tónus linguístico, mas de diferentes proveniências globais.  É certo que a gafe do 4º parágrafo – «sai» em lugar de «saí» – me fez eventualmente pensar que talvez pertencesse às regras do AO, mesmo no contexto pretérito, 1ª pessoa do singular – e não presente, 3ª - mas pensei em país, em saía, em caía e por fora que ainda não estavam – parecia-me - transformados em pais, saia caia, nem sequer em angustioso ai, e sosseguei a minha apreensão, depois de confirmar na Internet – que agora já nem é preciso consultar o livro da gramática para esclarecermos as dúvidas, permanecendo colados à cadeira da nossa alteração óssea progressiva. Tratava-se mesmo de uma simples gafe como as que eu cometo, por ignorância ou distracção, que ambas pertencem  ao “errare humanum est” dos nossos antepassados clássicos que gostavam de escrever coisas.
Seguidamente informa Cidreiro Lopes da sua profissão de professor de português no estrangeiro – não, pois, de línguas como se subscreve, mas apenas de uma só – a sua – pelo que retiro o que disse sobre a multiplicidade linguística impeditiva de concentração numa só, baralhando necessariamente as pistas, ao ter que se adaptar aos registos orais dos seus alunos de outros glossários, o que o predispôs para a maleabilidade relativamente ao seu próprio glossário, quer no que toca à escrita quer na questão da oralidade.
Segue-se que daí resulta a sua crítica amarga contra os que estagnaram no seu pequeno rectângulo lusíada, parando de sonhar - mau grado o poetar de alguns desses - contra os progressistas que souberam “dar a volta” desenvoltamente, sem pesos na consciência - «Há dois tipos de portugueses adultos: os que “deram a volta” e se atualizaram e continuam a sonhar, e os que “não deram a volta” e estacionaram, satisfeitos com as posições já alcançadas. – embora eu ache isso uma asserção incorrecta, já que os que «estacionaram» na questão do «sonho», podem talvez ter estudado outras línguas mesmo as de origem das novilatinas e isso lhes faz que possam «continuar a sonhar» com mais dignidade linguística, na minha modesta opinião, defendendo a sua língua mãe contra a “acefalia” (designação mais bem educada incontestavelmente que o designativo  “estupidez” de G. C. ) dos fazedores do actual AO.
De resto se o português provém de um latim muito bárbaro, segundo opinião de João Cidreiro Lopes, o certo é que o mesmo sucedeu com as outras línguas novilatinas, e nem por isso os respectivos povos as abastardaram, como connosco sucede. Na verdade, por alturas do Renascimento, a leitura dos clássicos greco-latinos, preservados na Idade Média conventual, trouxe a aristocratização e enriquecimento da língua, acompanhando a evolução e enriquecimento das mais, com influências constantes ainda, dessas e outras sobre a nossa – estrangeirismos se lhes chama (além dos latinismos e helenismos mais comuns) - mas também temos a marmelada e o barroco entre muitos outros termos que aquelas de nós colheram, para nossa glória.
E nada disso tem a ver com o AO, estapafúrdio e perfeitamente arbitrário - estúpido diria eu, acompanhando a indignação de Gastão Cruz, já sem pruridos da cortesia que Cidreiro Lopes exige no seu texto incongruente, de grande pobreza espiritual, ao pretender adaptar a oralidade à grafia, sem ter em conta a pronúncia, que a escrita protege tendo em conta também a etimologia, através de regras próprias indispensáveis à sua manutenção
Cidreiro Lopes foi professor que usou a oralidade mais do que a escrita, que, segundo informa, está cheia de regras absurdas.
Nossa! Desisto de continuar a exploração do seu texto, todo ele ditado pela subserviência oportunista, apesar da homenagem introdutória ao ríspido colega de universidade, que honestamente zela pela dignificação da sua língua.
Um fedor de texto, que não apetece reler. Pouah! Na interjeição inglesa para desprezo. Oba! , na brasileira, mais doce. Irra! na minha, contrariada, e até preferindo estoutra mais grosseira, de Chiça! do fundo da alma, soltando-se.

Escrita irritada pode ser delicada
João Cidreiro Lopes Professor de línguas aposentado
Público
14/08/2016

 Compreendi que o Português só poderá ter valor como língua importante quando deixar de ter variações locais em diferentes continentes.

Tópicos  Angola  Brasil Moçambique Língua Portuguesa   Acordo Ortográfico  Gastão Cruz Qustões sociais

Gostei muito de ler a crónica “O injustificável acordo orto(?)gráfico” do apreciado poeta e crítico literário Gastão Cruz, repudiando a Língua Portuguesa atual e argumentando que o Acordo Ortográfico em vigor é estúpido e inútil, o que muito o irrita.
Aceito que se irrite e o ache inútil, mas não que chame “estúpido” ao trabalho coletivo de uma série de homens de letras de uma craveira possivelmente tão elevada como a sua. Apreciei a argumentação dura do poeta (talvez num dia um tanto azedo?), mas a sua crítica está muito bem fundamentada, tendo em conta o conhecimento de que dispõe sobre o Acordo.
O texto é pouco objetivo, pois só refere aspetos negativos e ignora tudo o resto. Se estivesse na sua situação, eu provavelmente pensaria da mesma forma, mas com menos violência. Por vezes uma pessoa, mesmo sendo poeta, na falta de argumentos recorre à ofensa física ou oral.
Pela minha parte sou um simples professor. Não tenho obras publicadas nem contatos com figuras públicas. Sou anónimo. Mais duas diferenças: apesar de ter o mesmo curso de Gastão Cruz, sai da faculdade quando ele entrou, e estou bastante mais a par do Acordo, pois nele reconheço aspetos negativos mas também positivos. E a diferença fundamental: a ortografia de antes ou depois do A.O. não me afeta, pois a minha vida não depende da imobilidade indispensável a quem escreve por profissão.
Há dois tipos de portugueses adultos: os que “deram a volta” e se atualizaram e continuam a sonhar, e os que “não deram a volta” e estacionaram, satisfeitos com as posições já alcançadas.
Como professor lecionei durante décadas Português no estrangeiro, principalmente na Alemanha, e Língua Portuguesa para Estrangeiros na Faculdade de Letras. Ao longo da vida dediquei-me somente a estudar a nossa língua e devo confessar que só comecei a compreendê-la em profundidade depois de vários anos a ensinar universitários estrangeiros e a tentar responder às suas perguntas e dúvidas. Até então eu era um docente interessado e culto, que pensava dominar perfeitamente a língua portuguesa, depois de a ter usado, estudado e ensinado ao longo de muitos anos.
Ao tentar esclarecer as dúvidas e questões que os meus alunos europeus, asiáticos, americanos, africanos e oceânicos me punham, tentando compreendê-las por comparação com a descrição que me iam fazendo da gramática das suas línguas maternas, descobri que a língua que eu falo não é tão perfeita como eu julgava.
A nível mundial o Português que falamos é uma língua com origem num latim muito bárbaro, com forte influência do grego e do árabe, para além de outras, como o francês e modernamente o inglês. Comparada com outras é uma língua um tanto confusa e bastante ilógica, com vagas e antiquadas regras, que pouca gente conhece e respeita. E o que é errado, depois de repetido milhões de vezes, torna-se correto.
Compreendi que o Português só poderá ter valor como língua importante quando deixar de ter variações locais em diferentes continentes. E descobri também que quase todos os alunos estrangeiros queriam afinal aprender Português para futuras ligações, integrações e negócios com o Brasil, Angola, Moçambique, Guiné, Macau, Timor etc e também para poderem depois ensinar Português nos seus próprios países.
A relativamente poucos interessa aprender o “Português só de Portugal”: só para turismo de férias, namoro ocasional, segunda residência de estrangeiros reformados ou falso casamento negociado para permitir a entrada na Europa.
Esta descoberta surpreendeu-me e causou-me problemas, ao reconhecer que afinal não dominava a língua mundial que os alunos pediam que lhes ensinasse.
Felizmente as línguas são na sua essência faladas. Quando nascemos não sabemos falar. Aprendemos a comunicar com as pessoas que nos estão próximas por ruídos, gestos e finalmente pela fala, que nos acompanha e vai evoluindo ao longo da vida. Só anos depois compreendemos que não é possível falar com pessoas que estão longe de nós. Informam-nos ser possível comunicar por nuvens de fumo, reflexos de espelhos, bandeirolas em mastros. Obrigam-nos depois a ir para a escola e a reproduzir por escrito os sons com que comunicamos com as outras pessoas. Mas criam regras nem sempre claras, para nos cercear a liberdade.
A ortografia é sempre uma tentativa de acompanhar a fala, e esta, como a língua é viva, vai-se alterando lentamente e evoluindo ao longo do tempo. Vão aparecendo novas invenções a que é preciso dar nome e desaparecendo outras tornadas inúteis, às quais ninguém mais se refere.
A maioria dos neologismos são cópias e imitações de palavras inglesas que nada têm a ver com as nossas raízes linguísticas. Ainda mais infelizmente, as mensagens que os jovens teclam nos seus telemóveis e afins já não são escritas em Português, mas numa mistura de abreviaturas, símbolos e anglicismos que horrorizam os cada vez menos puristas da língua.
Mas nem tudo é mau. A comunicação escrita é cada vez menor, substituída pela comunicação oral, que no fundo é a forma original de as pessoas comunicarem entre si. Felizmente foram sendo inventadas formas de comunicar à distância usando a fala e não necessitando de recorrer à complicada escrita. Quando a comunicação oral progride, a comunicação escrita regride.
Eu próprio acreditava escrever sem erros até descobrir que ainda faço vários. E ao ouvir gravações de como falo, ainda mais horrorizado fiquei.
O mesmo acontece com as pessoas que conheço, incluindo professores de Português. Não consigo recordar um português culto em cuja escrita não tenha encontrado pequenos erros de língua.
Na Faculdade apareciam-me por vezes estudantes portugueses, finalistas de Letras, a pedir autorização para assistir às aulas de Português dos estrangeiros, “para os ajudar a integrar-se, a conviver e a conhecer a cidade”, principalmente suecas e italianas.
Quando havia ditado, os portugueses, “para ajudar a integração” sorriam e pediam para fazer também o ditado. Curioso é verificar que os alunos estrangeiros fazem menos erros do que os finalistas portugueses, que tinham anunciado que “aquilo ia ser canja”. Uma chinesa perguntou até a um dos visitantes: Se você aprendeu bem a sua língua, porque faz tantos erros?
Na sua essência as divergências que hoje existem entre quem se declara a favor ou contra o Acordo são naturais mas não são fáceis de eliminar. Na anterior Reforma Ortográfica, em 2011, foi tudo muitíssimo mais complicado.
O A.O. veio facilitar a comunicação em língua portuguesa a nível internacional e mundial, mas a nível local veio prejudicar muitos cidadãos cuja subsistência está relacionada com a manutenção da imobilidade da ortografia em que nasceram, principalmente escritores, editores e críticos literários. Tal como os teclados eletrónicos estragaram a vida aos tipógrafos que enfileiravam à mão as letras das frases, também o “Português mundial” vem pôr de lado o “Português só nacional” que até agora dava emprego e estabilidade financeira a profissionais desejosos de sossego e paz. Mas a nível particular cada adulto é livre de escrever como lhe tentaram ensinar na escola primária.
No fundo cada pessoa tem hoje de optar entre duas opções:
– Ser uma pessoa que prefere viver num país pequeno e isolado, se sente satisfeita com o nível de estabilidade e reconhecimento que o seu trabalho lhes proporciona, e que comunica com o exterior numa antiga língua local com 10 milhões de falantes.
– Ser uma pessoa que nasceu num país pequeno e isolado, mas que se sente também cidadão do mundo e ousa enfrentar novos desafios, aceitando várias mudanças na sua vida e na sua relação com uma língua viva com mais de 200 milhões de falantes.
Creio integrar-me no segundo grupo. Apesar de ser hoje um septuagenário, mantenho o meu espírito em bom estado, acompanho o meu tempo e continuo com vontade de ajudar o meu país a progredir.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Gato escondido…



Uma estranha notícia, ocupando duas páginas – 30/31 - no Público de 5/8, revela um quadro de Edgar Degas - «Portrait de Femme» - pintado sobre outra figura da mesma mulher, em posição invertida, que foi modelo de Degas entre 1869/70. Quando, em 1937, o quadro foi exposto pela primeira vez em Melbourne, ele já apresentava uma mancha preocupante, sintoma de deterioração de tintas causada por secreto factor. Ao ser apresentado novamente na mesma Galeria Nacional de Vitória, em Melbourne, numa exposição sobre Degas, cerca de oitenta anos depois, ele vinha acompanhado da foto escondida da modelo e da sua reconstituição obtida através de uma técnica de fluorescência de raios X. A descrição dessa técnica revolucionária foi publicada na revista Scientific Reports em 4/8/16, e constitui uma extraordinária revolução científica de um interesse apaixonante que o artigo de Nicolau Ferreira tão vivamente apresenta.
Gosto de Degas, a reprodução do seu quadro “Les repasseuses” acompanha-me desde que iniciei as tarefas que incumbem ao ser adulto, de embelezar a casa, cuidar desta e da família e trabalhar para sobreviver. Um quadro muito conhecido, enquadrado num ambiente de desgaste e trabalho que oferece a dose de piedade própria da época de objectividade e realismo crítico que impregnavam igualmente a literatura da segunda metade do século XIX, tão expressiva em Cesário Verde, que especialmente estudara.
Mas o artigo de Nicolau Ferreira logo me chamou a atenção para o extraordinário feito científico de detectar mazelas nos quadros, como se faz nos seres humanos, em técnicas analíticas que levarão longe a descoberta. As fotos que acompanham o artigo, e que não reproduzo, encontrei-as na Internet igualmente, em maior quantidade ainda.
Um autêntico policial captador de mistérios no abismo da história, o desenvolvimento científico. Aonde iremos chegar?

Revelada mulher escondida num quadro de Edgar Degas
05/08/2016

Obra de pintor francês foi analisada usando técnica avançada de raios X, permitindo recriar as cores de uma pintura escondida. Método que permitiu comparar a evolução técnica de Edgar Degas.
À esquerda, o retrato de uma mulher desconhecida, visto pelos olhos humanos; e à direita, o retrato oculto da modelo Emma Dobigny, que está virado de cabeça para baixo em relação à pintura feita posteriormente
David Thurrowgood

As biografias de Edgar Degas (1834-1917) descrevem-no como um artista interessado em pintar o sujeito humano, principalmente as mulheres. Nas suas obras encontram-se bailarinas, cantoras de cabaret, vendedoras de chapéus, imagens da vida boémia e artística parisiense. Em Portrait de Femme (Retrato de Mulher), o observador vê uma mulher de cara cheia, com um vestido escuro e um tecido negro a cobrir-lhe a cabeça. O quadro pertence à Galeria Nacional de Vitória, em Melbourne, na Austrália, desde 1937. Já na altura, a obra revelava mais do que o que se via à superfície.
“A mulher desconhecida está sentada, debruçada, à beira de uma conversa, os seus olhos estão vivos, com interesse. A concentração com que ouve um interlocutor que está fora de cena foi captada em pinceladas rápidas e hábeis, que estão de acordo com o estilo que o pintor tinha no final da década de 1870”, diz a descrição do quadro, datado entre 1876 e 1880, que consta no site do museu australiano. Mas, “os méritos intrínsecos [do quadro] são difíceis de apreciar devido ao infortúnio de outra composição se revelar numa mancha escura ao longo da cara da mulher sentada, desfigurando este retrato cativante”.
Quando a obra foi apresentada pela primeira vez ao público australiano, a 6 de Agosto de 1937, esta mancha já era uma preocupação dos críticos de arte. Quase 80 anos depois, uma nova exposição na Galeria Nacional de Vitória com mais de 200 quadros de Edgar Degas inclui agora uma reconstituição da composição que está escondida em Portrait de Femme. Graças ao uso de uma técnica de fluorescência de raios X, uma equipa de investigadores conseguiu obter uma imagem com as cores muito aproximadas da pintura escondida, identificando a modelo retratada pelo pintor francês.
O artigo científico sobre este trabalho, que aliou uma tecnologia de ponta ao estudo da arte, foi publicado ontem na revista Scientific Reports. Segundo os autores, a técnica poderá ajudar a confirmar a autenticidade de outras obras de arte.
Embora Edgar Degas não se visse como um impressionista, muitos historiadores de arte colocam-no neste movimento, conhecido por nomes como Claude Monet e Pierre Auguste Renoir. Este grupo de artistas franceses transformou a pintura na segunda metade do século XIX ao escolher como objecto as paisagens naturais e as do quotidiano, e dando mais importância à cor e à luz do que às linhas e aos contornos. Assim, criaram obras que, apesar de menos detalhadas, se aproximavam mais da forma como observamos a realidade do que as pinturas feitas anteriormente.
Durante a década de 1860, a Academia de Belas-Artes de Paris recusou os quadros destes pintores. Por isso, na década seguinte, Monet, Renoir, Degas e muitos outros artistas formaram uma associação. Em 1874, essa associação organizou a primeira de várias exposições com os seus trabalhos, que iriam marcar o início do impressionismo.
O quadro Portrait de Femme e a composição escondida de Edgar Degas foram pintadas durante aquele período. Desde 1922 que se identifica o contorno da figura escondida no quadro, uma consequência da degradação dos pigmentos da pintura a óleo.
No passado, uma imagem de raios X já tinha dado aos historiadores de arte alguma informação sobre a pintura escondida, revelando uma jovem. “Fotografias a infravermelho da tela mostram ainda que aquele era um esboço traçado com delicadeza e cuidado, reminiscente do estilo clássico que Degas usava por volta de 1860, quando o seu trabalho venerava os antigos mestres da pintura”, explica-se no texto do museu. A cara da jovem está de cabeça para baixo: ou seja, Edgar Degas pintou este primeiro retrato e alguns anos depois, entre 1876 e 1880, virou a tela ao contrário para pintar o novo retrato.
Elemento a elemento
Isto era tudo o que se sabia. Agora, as imagens obtidas pela equipa de Daryl Howard, do Sincrotrão Australiano, em Clayton, permitiram ir mais longe e revelar a identidade da misteriosa figura feminina. “As composições iniciais que foram escondidas por trabalhos posteriores, dão informação importante sobre as obras de arte e os artistas”, lê-se no artigo da Scientific Reports. “Elas podem revelar a evolução de um artista e ter um valor incalculável para a atribuição da autoria de um trabalho.”
Para isso, os cientistas usaram um sincrotrão, uma máquina que envia feixes intensos de raios X para o quadro, provocando uma reacção de fluorescência, e permitindo analisar a pintura a um novo nível. E trabalharam com um detector de fluorescência de ponta. “As imagens de fluorescência por raios X de alta definição funcionam através de uma digitalização rápida da imagem do quadro, que é atravessado por um feixe de raios X”, explica ao PÚBLICO Daryl Howard. “É necessário um detector de raios X capaz de trabalhar muito rapidamente.”

(Quadro a ser examinado numa poderosa máquina de raios X e a imagem resultante desse exame)
A imagem demorou 33 horas a recolher, criando uma documento com 31,6 milhões de píxeis. “Somos capazes de identificar os pigmentos de metais a partir de uma fluorescência característica”, explica ainda o cientista. A equipa conseguiu assim dividir a imagem de fluorescência em 11 imagens diferentes, cada uma mostrando a distribuição de um único elemento químico – do cálcio, do manganésio, ferro, cobalto, zinco, mercúrio, crómio, níquel, cobre, arsénio e bário.
Depois, os cientistas associaram cada elemento químico a um pigmento, relacionado com o local onde estava situado na pintura escondida e as tintas usadas na época. O zinco, por exemplo, está no local da face, mas também na orelha e no cabelo. “O zinco estaria mais provavelmente na forma de pigmento branco de zinco, que se tornou muito usado após 1845”, explica o artigo.
Fazendo este tipo de associação com os 11 elementos químicos, a equipa definiu a paleta de cores que o pintor terá usado no esboço encoberto. A informática fez o resto, uma espécie de tradução imediata dos elementos químicos para as cores. E voilà! Obteve-se uma imagem a cores da jovem mulher, onde os tons castanhos e pastel se destacam, ao contrário dos amarelos, verdes e tons mais escuros da pintura que é visível aos olhos humanos.
“A ‘falsa’ imagem a cores resultante é a representação plausível do trabalho do artista naquele período”, lê-se no artigo, que aponta a identidade da mulher retratada. “Propomos que seja um retrato, previamente desconhecido, da modelo Emma Dobigny, cujo nome real era Marie Emma Thuilleux, que foi modelo para Degas entre 1869 e 1870 e é descrita como uma modelo favorita de Degas e de outros artistas franceses deste período.”
Segundo a literatura científica, o pintor francês tinha um apreço especial por esta modelo. Os autores defendem que talvez por isso tenha havido uma “insatisfação” por parte Edgar Degas em relação ao resultado do esboço, o que terá levado o pintor a abandonar a obra a meio. De facto, uma leitura minuciosa da imagem de fluorescência revelou várias tentativas de pintar a orelha de Emma Dobigny, que surge um tanto ou quanto pontiaguda, explicam os autores.
Toda esta informação permitiu à equipa de Daryl Howard apontar o ano de 1869 como a data provável do retrato da modelo.
Para os autores, esta técnica oferece “uma probabilidade muito maior de identificar os pigmentos correctos quando comparada com as técnicas de análise não invasivas convencionais”. A equipa espera que o seu uso se dissemine e seja aplicado nos estudos de confirmação de autoria de pinturas, já que “revela informação estilística e sobre a composição dos elementos [químicos], cuja reprodução é improvável por pessoas que tentem copiar um trabalho”.
Para já, a nova imagem permitiu observar as mudanças artísticas de Edgar Degas entre 1869 e 1880, já que a “transformação da paleta de cores usada e da técnica está claramente documentada”, revelando assim um quadro que é uma prova viva da evolução de um dos grandes pintores do século XIX.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sem papas na língua



É verdade que, fascinada pelas palavras cheias de António Costa, de mãos dadas com as Catarinas e os Jerónimos do pelotão apoiante, e com a camaradagem flutuante dos seus próprios comparsas de grupo, encantados com a oportunidade de figurarem novamente ao comando desta mesquinha embarcação sempre à deriva, entre o aperreamento e a balda, entre a ilusão e o sono, entre o desejo e a mortificação, também eu me quis convencer de que tudo nos vai correr  à maneira, e todos os meses espreito o vencimento, para ver se está a ser reposto, segundo a fórmula “o prometido é devido” que se badalava quando tudo começou. Mas este texto de Paulo Rangel veio tirar-me as peneiras e a partir de agora não vou mais acreditar em mudança, apesar do Camões e dos outros adeptos do rio que flui, a não ser que seja para águas ainda mais poluídas.
Não há nada a acrescentar, suponho, a esta expressiva síntese do deputado europeu.

O consumo consome e consuma o Governo
Público16/08/2016
1. A estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística — ainda carecida de correcção e precisão — mostra que o crescimento económico a meio do ano, passados os dois primeiros trimestres, se queda por menos metade do que inicialmente previu o Governo e por metade do que se registou em 2015. O Governo Costa, socialista e apoiado activamente pela esquerda radical, tinha como grande bandeira o crescimento. Crescimento que se faria essencialmente por obra e graça da procura interna, do consumo privado, induzido por uma devolução acelerada e robusta de rendimentos aos funcionários públicos e pensionistas. Ainda no fim-de-semana, Jerónimo de Sousa insistiu na necessidade de, no Orçamento de 2017, aumentar as pensões e os salários da função pública. O crescimento seria também propiciado por um aumento do investimento público e até privado. Mas investimentoapesar da reacção delirante de Ana Catarina Mendes na noite da Festa do Pontal do PSD — nem vê-lo! A receita milagrosa de Costa e de Centeno e, bem assim, dos seus aliados da extrema-esquerda falhou rotundamente. Afinal onde está a subida notória ou, ao menos, visível do crescimento? Com a política socialista e da esquerda radical o crescimento decresce e decresce a olhos vistos: decresce para metade do ano passado e para menos de metade das previsões de Centeno e Costa. O dito estímulo ao consumo já consumiu o Governo e há-de consumi-lo até o consumar.
2. O silêncio sepulcral do PS, do Bloco e do PCP, a respeito desta aferição do INE, mostra bem o fracasso das políticas do Governo. Aumentar de supetão e selectivamente, num único ano, os rendimentos de duas classes da populaçãocomo se todas as outras não tivessem sido expostas aos mesmos sacrifícios por causa do resgatenão produziu nenhum efeito palpável no crescimento económico. E, porque essa medida imprudente teve como contrapartida um significativo aumento de impostos (também sobre o consumo), assistimos a um evidente efeito recessivo de diminuição do crescimento económico. Isto, que comprova a falência e a exaustão do programa económico do Governo da frente de esquerda, nenhum dos três ou quatro partidos comenta ou explica. Não se ouviu uma palavra de Costa, de Catarina Martins ou de Jerónimo de Sousa sobre este mau resultado. Ouviu-se, sim, sem nenhum menoscabo para a dirigente socialista, uma surreal declaração de Ana Catarina Mendes em reacção ao discurso sério, responsável e realista de Passos Coelho no Pontal. A substituta de Costa no PS parece viver num outro país ou até num outro mundo. E depois, já ontem, ouviu-se uma investida lírica de António Costa contra Passos Coelho, sem nada conseguir explicar acerca dos números do crescimento que tanto o inquietavam e obcecavam quando ele — o crescimento — de facto existia. Jerónimo e Catarina, esses, guardam de Conrado o cabido silêncio — sem nada dizerem quanto à derrocada das políticas que tanto sustentaram. É espantoso como estes dois partidos que se alimentam do ruído político — algures entre a gritaria e a berraria — estejam agora tão calados, tão sossegados, tão disciplinados.
3. Mais grave ainda é que essa aposta no consumo privado — que falhou tão ostensivamente — consumiu todo o programa do Governo, que afinal nela se consumava. Fora dessa estratégia, que se revelou tão frustre e fraca, o Governo não tem quase nada ou mesmo nada para apresentar. Em termos económico-financeiros, foi desastrosa a gestão do caso Banif e verdadeiramente medíocre a gestão, ainda em transe, dos assuntos da Caixa Geral de Depósitos. No campo da educação, o Governo prosseguiu pura e simplesmente o caderno de encargos dos sindicatos da FENPROF, hipotecado ao PCP e à CGTP, destruindo todo o adquirido de muitos e muitos anos. Em sede de saúde, apesar da vontade do Ministro, as cativações — impostas pelo aumento da despesa destinado ao tal impulso ao consumo — geram dívida acumulada e vão afectar gravemente os serviços dentro de meses. Na área fiscal, o Governo não cessa o aumento brutal de impostos, geralmente, como se vê bem no IMI, de forma encapotada. Um tal aumento tem um impacto automático na queda do crescimento a que aqui se aludiu. Tudo isto para não falar na exemplaridade dos padrões de ética republicana, onde o Governo soberbamente queria dar cartas e em que tem sucumbido de modo assaz deplorável. Os outrora moralistas do regime, sempre de dedo em riste, Bloco e PCP, estão agora mudos e quedos, com declarações de princípio abstractas, sem qualquer convicção ou acutilância. O episódio do Secretário de Estado que usa de má fé para receber um subsídio de residência não lhes suscita nenhuma denúncia; o envolvimento do Ministério da Educação na manobra de condicionamento e de ataque à independência de um juiz não lhes motiva nenhuma repreensão; a promiscuidade de membros do Governo com empresas sobre a sua tutela é retratada a título de pura e simples ingenuidade, como se se tratasse de crianças sem qualquer experiência políticaO Governo podia ser apenas incompetente e falhar nas suas metas, mas mostrar-se um guardião dos princípios do Estado de Direito, com que os seus sustentáculos parlamentares da esquerda radical tanto enchem a boca. Mas nem isso.
4. Mau, francamente mau, foi também o desempenho da titular da Administração Interna em matéria de prevenção e combate aos incêndios. Depois de se ter alardeado que Portugal nunca estivera tão bem preparado, a Ministra tardou, e muito, a aparecer, chegando a deixar o Primeiro-Ministro sozinho numa visita ao comando da Protecção Civil. E tardou, e muito, em accionar o apoio internacional. Se ela esteve bem na questão dos refugiados, parece agora falhar no núcleo duro das suas funções: a protecção civil e a polícia. E nem sequer hesitou em procurar afastar as Forças Armadas de uma responsabilidade que estas podem muito bem, no quadro de uma compreensão moderna da sua missão, assumir. A Ministra tal como o Governo também se aqui se consumiu e quase, verdade seja dita, se consumou.