domingo, 19 de fevereiro de 2017

“É o nosso petróleo”


Foi o que disse a nossa amiga em largos gestos e a voz ampla, como é seu hábito, quando expõe uma surpresa importante. Falou-se dos próximos peregrinos de Fátima que passarão os nove milhões, o que se vai tornar extremamente perigoso, sabendo-se que não somos muito mais do que dez milhões cá, e nem todos nacionais. Eu senti-me esmagada, mas ela repetiu radiante: «É o nosso petróleo!» É certo que depressa abandonarão o terreno, quantos deles até sem pagarem estalagem, que não deve haver albergues para todos. O Papa Francisco não se demora, vem só para a missa e o sermão, segundo explicou, e certamente que os peregrinos irão depois dele, esperemos que sem grandes atropelos. Foi por isso que eu contestei a questão do petróleo, embora a minha irmã, com simplicidade, também tenha frisado que as aparições verdadeiras ou falsas de Fátima desde sempre se tornaram uma mina para o Estado Português. Eu aproveitei para falar na canonização próxima da irmã Lúcia, e a nossa amiga referiu coisas que tinha apanhado na Sic, primeiro, sobre uma jornalista que escreveu um livro chamado “Fátima. Os pastorinhos e a construção”, julgo que destruidor do mito, sobre o que os pastorinhos viram de facto e o que se recriou a propósito disso, aproveitando-se os seus criadores da ignorância do povo, como a nossa amiga frisou com alguma ferocidade; segundo, falou nas cartas que a Irmã Lúcia recebeu em vida - “Era tanto o papel que tiveram que o queimar” o que eu achei uma profanação, pois algumas das cartas deveriam conter referências a milagres por intermédio dela, que serviriam de fontes para investigações biográficas futuras. Na questão do petróleo, afirmei ainda que, se Fátima nos fornecia assim dinheiro, era esse um verdadeiro milagre e só lamentei não sermos nós as três beneficiadas do turismo evangélico miraculoso, mas a sorte não é para todos, é mais que sabido, não devemos queixar-nos, que até parece mal, quando há tanta gente em situações afrontosamente mais tramadas, além de que no meu caso pessoal o dinheiro esvair-se-ia rapidamente, como de costume, e nem valeria a pena recolhê-lo.
Falou-se também da morte, das pessoas que continuam a arrastar-se de joelhos, lá em Fátima, o que a minha irmã considerou coisa impossível para ela, por lhe doerem os joelhos e eu coisa impossível para mim, a quem o peso e a idade impedem que me arraste assim, ou sequer mesmo só o ajoelhar-me, ou subir a uma cadeira, eu que fui corredora de pé cheio! Quanto à  nossa amiga, embora mais disponível fisicamente,  não parece disposta a arrastar-se, ainda hoje adepta dos passeios a pé, para manutenção da forma invejável que mantém. Mas a propósito de morte, logo ela, sempre de estilete afiado, acrescentou:
- Não há ninguém que consiga ficar cá, apesar de ir a Fátima. Nem a Lúcia.
Ainda repontei que se vai a Fátima não para se não morrer mas para se não sofrer tanto, ou para escapar só dessa vez, ou mesmo para agradecer a cura, conquanto seja esta por vezes da responsabilidade do médico, nunca se sabe bem. A minha irmã também lá foi quando o meu pai adoeceu e trouxe-nos estatuetas da Nossa Senhora  de Fátima, que eu tenho em profusão, por ter herdado as dos meus pais, e uso-as no meu quarto a resguardar os filhos e netos nas suas fotos, em fila arredondada, mesmo sem as coroas, que se perderam nas mudanças, mas como vivemos em democracia, a Nossa Senhora não estranhará, tal como a da ceia do Garrinchas. De qualquer modo, acho a figura da Senhora muito bonita, mesmo sem coroa, a lembrar-me os versos de Antero: «Ó visão, visão triste e piedosa! / Fita-me assim calada, assim chorosa… / E deixa-me sonhar a vida inteira!”, embora não fosse esta ainda do conhecimento de Antero. Mas falou-se outra vez de Lúcia, prestes a ser canonizada, e eu lembrei a sua vida de carmelita, sempre prisioneira.  E a nossa amiga, uma vez mais, fez transparecer o seu ateísmo ferrenho de moça que teve uma mocidade alegremente descontraída, de reuniões e danças e matinés e mergulhos com os seus amigos e amigas na piscina dos Velhos Colonos:
- Sim, os outros dois pastores morreram cedo, mas esta, lá no convento, sem poder sequer apanhar ar!

Julgo que é este mundo em que vivemos o responsável pela sua ironia, de receio amargo do futuro.

Está tudo dito



O artigo de Vasco Pulido Valente, que só li agora, serve bem de corolário ao de Alberto Gonçalves que transcrevi  antes:

Diário de Vasco Pulido Valente
O mestre da encrenca
OBSERVADOR, 19/2/17

… hopes expire of a low dishonest decade… W. H. Auden

Quem conheceu Marcelo nestes quarenta anos de democracia com certeza não se espanta com a encrenca que ele agora arranjou com o primeiro-ministro e o ministro das Finanças. Onde ele pode baralhar as coisas, baralha – pelo prazer, por impulso, porque a sua natureza o impede de se calar, quando devia ficar calado, ou de falar quando devia falar. Com vinte anos, foi o “lélé da cuca” e a “vichyssoise”. Depois vieram outras mais graves, menos graves, numa sucessão irresistível até à Presidência da República, onde ele tem finalmente a oportunidade de exercer o seu talento e consolar o espírito. Mesmo na televisão os comentários dele eram sempre sobre a habilidade de cada um para enganar o próximo e o bom povo, a quem hoje ele inunda de “afecto”, num espectáculo pelo menos pouco sério. Há quem goste e há quem se desgoste. Não interessa. Se o elegeram, que o aturem.
De resto, Marcelo em parte não tem culpa. A espécie de sarilho em que desta vez se resolveu meter exige parceiros e ele descobriu dois com muitas possibilidades: Centeno e Costa. O jogo do diz que disse e que não disse, ou que disse e não pensou, ou que pensou e não disse, precisa de um certo treino e de uma certa vocação. Pena que o Estado e as finanças da ralé sofram com isso. E que a Presidência da República, como o parlamento e os partidos, caia no desprezo geral. Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco cometeram erros, consentiram abusos, mas nunca se arriscaram ao ridículo e as querelas pueris, a que o vivaz Marcelo diariamente se presta. A República pede por força um Presidente; e a nossa, com origem militar, deu a essa personagem um papel, aliás, pouco a pouco limitado, mas que, de qualquer maneira, ainda é excessivo e lhe permite uma ingerência constante na política partidária.
Com Marcelo em Belém não consigo conceber onde iremos parar. Ou consigo: iremos de encrenca em encrenca até ao desastre final.

Tout va bien qui finit bien



Cá por mim, desde sempre que penso que nunca existiu verdadeira democracia neste país, a não ser na extrema liberdade de nos agredirmos, em exuberância de insultos ou ironias que os gestos acompanham, quer na Assembleia, quer nas manifestações públicas de rua, quer nas mesas televisivas de tendência circular ao modo arturiano da Távola Redonda, sem distinções específicas, convenção igualitária que qualquer cadeira armada em trono logo desmascara na sua inverdade. Com efeito, as democracias obtêm-se com estudo e bom senso, sendo igualmente o bom gosto parâmetro  imprescindível. Não é por um chefe ser muito popular e achegado a todos - sejam eles nacionais ou estrangeiros, nobres ou populares - que revela um carisma realmente democrático. A mim parece-me antes fruto de patetice, parolice, ou até toleima, que me leva ao nosso Pedro I, o qual dançava com o povo nas ruas mas mandou arrancar os corações dos matadores de Inês - a um pelo peito, a outro pelas costas, o Diogo Lopes Pacheco conseguindo escapar-se, com grande fúria real. Falava-se em ditadura no tempo de Salazar, e em mesa censória,  mas a verdade é que os livros passavam e as ironias também, em filmes ou espectáculos, de que Solnado foi exemplo e as edições da História da Literatura Portuguesa de Óscar Lopes e António José Saraiva se sucediam, apesar de proibido nos liceus. Agora, livro que defenda valores que não sejam os das apostas marxistas, é posto no índex, e afirmo-o por experiência própria. Enquanto o PSD e o CDS eram governo, as forças de esquerda tudo faziam para destabilizar, agora que a esquerda alinhada governa, os sindicatos a elas ligados acalmaram um pouco até ver, mas a esquerda no poder impõe a sua ditadura de pregação caritativa em favor dos deserdados, e de ódio escorraçador de todos os não alinhados.
É Alberto Gonçalves que o demonstra em  «Acabar com a democracia por SMS», ele próprio dos excluídos do DN, talvez por ordem superior de algum infiltrado da esquerda governativa nesse jornal. Não, não vivemos em democracia, pois não temos preparação intelectual para agir como democratas, no respeito pelo Homem em si - todo o Homem, e não só o protegido por uma falsa bondade, alimentada paternalisticamente de caridadezinha unilateral e massificadora, desprezadora de capacidades fora desse âmbito altruístico, aparentemente justiceiro.
Alberto Gonçalves descreve o caso da Caixa Geral de Depósitos e está tudo dito, com o que ele disse. Repito o primeiro parágrafo:   A franca sabotagem da comissão de inquérito prova que a maioria de esquerda abdicou de vez do verniz “institucional” e assumiu o seu único objectivo: manter o país sob controlo, custe o que custar.
O resto, é a demonstração. Por meio de argumentos segundo a focalização dos próprios do governo que cozinham fraudulentamente os seus artifícios de escape e de desvergonha, quebrando o “muro”, embora frágil, da decência.

Acabar com a democracia por SMS
OBSERVADOR,18/2/2017
A franca sabotagem da comissão de inquérito prova que a maioria de esquerda abdicou de vez do verniz “institucional” e assumiu o seu único objectivo: manter o país sob controlo, custe o que custar.
É absurdo pensar-se que o PS tem uma estratégia concertada para lidar com o “caso” da Caixa Geral de Depósitos. Que eu reparasse, o PS e os seus porta-vozes oficiais ou informais vêm exibindo uma riquíssima paleta de estratégias, umas concertadas, outras desconcertantes, todas atiradas para a arena sem especial ordem de preferência, inteligência ou, convenhamos, vergonha na cara. Com o rigor possível, consegui catalogar algumas.
Estratégia A Minha Pátria é a Banca Portuguesa. Excepto quando se encontra à disposição de indivíduos devidamente credenciados pela oligarquia, a CGD é uma instituição sensível que deve ser tratada com consideração e pinças. Perder tempo com irrelevâncias, mesmo que as irrelevâncias incluam, entre habilidades sortidas, as intrujices cometidas pelas mais altas figuras do Estado, é matar a Caixa, é descurar os “enormes desafios que o país enfrenta” (cito um patriota aflito) e é, vendo bem, um acto de traição.
Estratégia O Respeitinho é Lindo. É indecente andar-se a julgar o carácter alheio, principalmente de personalidades que não possuem nenhum. Vilezas assim só se admitem, e até incentivam, quando o julgado pertence à “direita”.
Estratégia Galo de Barcelos. Insistir nestas polémicas escusadas dá uma péssima imagem do lá fora. O que dirá o célebre “estrangeiro”?
Estratégia Amigos Para as Ocasiões. O que passou, passou. A quem importam os SMS trocados? Que interessa quem disse e fez o quê? Não queremos construir um futuro comum? De que vale agora apontar culpas?
Estratégia Ocasiões Para os Amigos. A culpa é obviamente do dr. Domingues, que reclamou intoleráveis privilégios – os drs. Centeno, Costa e Marcelo são inocentes em ambos os sentidos da palavra. Ou a culpa é do dr. Domingues e, em doses assaz pequeninas, do dr. Centeno, que na sua bondade tolerou sem propriamente tolerar os tais privilégios – os drs. Costa e Marcelo não sabiam de nada. Ou a culpa é dos drs. Domingues, Centeno e Marcelo, que afinal cozinharam tudo – o dr. Costa, coitadinho, sofre em recato a incúria dessa gente. Ou, melhor ainda, a culpa é da “direita”, porque as leis da física ditam que as responsabilidades por cada embaraço indígena acabam por cair em cima de Pedro Passos Coelho.
Estratégia O Peso da Tradição. Admitamos que o ministro, o Presidente da República e, por mera hipótese académica, o virtuoso primeiro-ministro mentiram. E depois? Os políticos não costumam mentir? E a “direita”, não mentiu através de (acrescentar nome), em (acrescentar data), ao dizer que (acrescentar alegada patranha de que já ninguém se lembra ou dará ao trabalho de verificar)?
Estratégia Recolher Obrigatório. Este é um caso encerrado.
Estratégia A Vida Continua. Mudemos de assunto e mostremo-nos chocados e constrangidos pelas revelações inoportunas que “o Cavaco” (esgar de desprezo) publicou em livro, para cúmulo escrito pelo próprio (repetir o esgar).
Embora a escolha não seja fácil, confesso que a minha estratégia favorita é a Send in the Clowns, na qual o PS lança os maluquinhos disponíveis para emprestar um toque surreal ao “debate” e adensar o nevoeiro. Um dia, em programa televisivo, o porta-voz do partido garante que “o PR está profundamente implicado nisto”. No dia seguinte, indiferente ao vídeo que o desmente ao comprido, garante ter garantido que “o PR não está implicado em nada”. Pelo meio, o dr. César dos Açores esclarece que o porta-voz do partido nem sempre é o porta-voz do partido. E uma senhora chamada Estrela, que em tempos quase se notabilizou por crer na honradez do eng. Sócrates, junta-se ao circo e adianta em dialecto evocativo do português: “Domingues foi útil p conseguir o apoio de Bruxelas à CGD e p isso era necessário ele acreditar q seu património n iria ao TC. PR colaborou.” Existem cabeças iluminadas. A da dona Estrela não é uma delas.
Perante isto, há boas e más notícias. A boa é que, numa democracia civilizada, tamanho desfile de incompetência, fraude e descaramento terminaria em investigações a sério e, provavelmente, na morte política dos implicados. A má notícia é que estamos em Portugal, reino da impunidade selectiva e das clientelas vorazes. A franca sabotagem da comissão parlamentar de inquérito prova que a maioria de esquerda abdicou de vez do verniz “institucional” e assumiu, por gestos ou omissões brutais, o seu único objectivo: manter o país sob controlo, custe o que custar. Na verdade, não custa muito. Na verdade, custará imenso. Desde o momento em que o dr. Costa derrubou o tal muro e abriu o regime à barbárie leninista que a nossa democracia prometia pouco. Hoje promete menos. Pode-se argumentar que o muro era fraquito e permeável. Mas era um muro.
Notas de rodapé:
Ao contrário dos comentadores que comentaram o livro de Cavaco Silva duas horas após o lançamento, não sou versado em “speed reading” ou candomblé. Fico-me, pois, pelos resumos saídos na imprensa e pela opinião dos prodígios acima. Os primeiros sugerem-me a excessiva importância que o ex-presidente concede ao eng. Sócrates, além da previsível constatação de que este é pouco instruído, pouco confiável, pouco educado e muito deslumbrado consigo mesmo. Já os comentadores, na maioria viúvas do deslumbrado, juram-me que o prof. Cavaco agiu mal: só se admite que um político retirado escreva as memórias se o político em causa for de esquerda e os visados nas memórias não. Assim, trata-se de uma lamentável devassa, um perturbador (ai) ajuste de contas, um exercício de ressentimento, uma demonstração de défice institucional, uma insolência em suma – quase tão grande quanto as cinco vitórias eleitorais de um homem que, garantem as viúvas, ninguém gosta. Sobretudo por comparação, eu não desgosto.