sábado, 16 de dezembro de 2017

UM TEXTO PASSADISTA


É de José Pacheco Pereira, sempre um prazer de leitura, pelas coisas que transmite, do seu muito saber. Neste caso, a incompatibilidade com um presente de pragmatismo imediatista e de espalhafato (julgo que assente em ambições ultrapassando o comedimento racional), desinteressado de leituras e conhecimentos que já então faziam os seus cultores estalar de orgulho e preconceito - (contra os do rebanho de então, amansado ou indiferente, ou ignorante desses saberes contestatórios, sua glória) e hoje se mantém na indiferença livresca dos novéis políticos criados à sombra do proteccionismo angariado na disciplina jotista:  O parágrafo final do seu texto, revela bem o orgulho já angariado nesses tempos de leituras febris contestatárias – as do seu saudosismo - que possibilitavam actos de pseudocoragem como esse que conta da oposição a Salazar, e que designa o capitão vigilante do regime por homúnculo do canto”: Não é para as pessoas voltarem à lanterna mágica, ou às televisões de caixa, ou ao Pacman, nem tenho qualquer nostalgia do stencil ou do verniz corrector, nem da máquina de escrever. Mas já tenho de homens como o esquecido e frágil Mem Verdial, com a sua gravata à Lavalière, já então tão fora do tempo, e que levou um paralelepípedo escondido para um comício da oposição a Salazar, patrulhado por um capitão qualquer que numa mesa podia interromper qualquer orador. E quando foi interrompido por dizer coisas subversivas sobre a democracia, perguntou ao homúnculo do canto: “O senhor representante da autoridade quer que eu ponha uma pedra sobre o assunto?”. E pegou na pedra e colocou-a em cima dos seus papéis. É este passado que me faz falta
Sim, o desprezo de Pacheco Pereira pelos «homúnculos de outrora» é o mesmo que o seu desprezo pelos “homúnculos de agora” - “essa gentinha”, na opinião de muitos outros ilustres intelectuais de hoje – e prova apenas que o muito saber, que faz falar de democracia, que era aquilo sobre que escreveram alguns homens do passado, abridores de novos caminhos para este presente de amor pelos deserdados (caldeado pelo desamor pelos “herdeiros”), apenas lhes inspira um orgulho incomensurável pelos valores próprios da sua intelectualidade. Orgulho racial, de uma raça intelectual superior, nos seus pergaminhos e experiências livrescas que, ao invés de apelarem para uma modéstia resultante do conceito de relatividade dos saberes, se entrincheira na sua convicção de que só esse é válido, apesar do reconhecimento de tanto modernismo tecnológico e científico transmissor de igual orgulho aos do presente que os descobriram e mesmo aos que deles usufruem, sem tanta leitura, é certo, mas com outras experiências que tanto bestializam (no exagero do seu usufruto) como abrem novos caminhos e inteligências, sem dúvida.

OPINIÃO
Mas qual é o mal do passado?
O passado tem má imprensa, o presente é o melhor que há e o futuro então não se fala, é o período da felicidade perfeita, tanto mais perfeita quando todos já estaremos mortos.
José Pacheco Pereira
Público, 9 de Dezembro de 2017
No início de um livro de L. P. Hartley há uma frase que eu cito bastante e vou fazê-lo de novo: “O passado é um país estrangeiro, lá fazem-se as coisas de forma diferente”. Em inglês é ainda melhor: "The past is a foreign country; they do things differently there". E cito-a pela obsessão absurda que existe nos dias de hoje na política e na comunicação social, de achar que “voltar ao passado” é um coisa tenebrosa e um insulto. Este tipo de frases são o pão nosso de cada dia na competição eleitoral no PSD, em que cada candidato atira ao outro ou aos seus apoiantes a acusação de que são o passado. Na verdade, o candidato mais do passado é que o faz com mais denodo e falta de vergonha, tanto mais que os “jovens” que apresenta são infinitamente mais velhos do que os “velhos” que eles atacam de senectude. Presumo que eles acham que têm um DeLorean ao seu dispor, visto que a probabilidade de entenderem alguma coisa do passado, presente e futuro dificilmente passa do Back to the Future.
Mas se fosse só nestes conflitos de menores, passávamos bem. Mas é no debate parlamentar, no comentário, na moda, e nessa ecologia em que vivemos no tempo presente e que se chama “comunicação social”. A obsessão pela “novidade” da comunicação social, é da mesma natureza destes jogos retóricos. Estão sempre a descobrir génios jovens e prometedores cuja fama não dura um ano, e que em muitos casos são os amigos deles, ou noutros são os que estão na “moda”, essa tenebrosa forma de identidade fugaz, cujas raízes no passado são aliás sempre mais importantes do que as folhas do presente. Resumindo e concluindo: o passado tem má imprensa, o presente é o melhor que há e o futuro então não se fala, é o período da felicidade perfeita, tanto mais perfeita quando todos já estaremos mortos.
Mas ainda me hão-de explicar o que é que tem de fascinante o presente, e como é que sabem que o futuro vai ser melhor. Nem o presente é brilhante, o que acontece é que estamos presos nele, temos que viver nele, e nem ninguém sabe o que vai ser o futuro porque a essência da história é a surpresa. Pelo contrário, no passado podemos escolher algum proveito e exemplo, mesmo que saibamos que ele nunca se repete, e se se repete, como dizia Marx, tem sempre tendência para ser como comédia. Corrijo aqui o velho Karl, nos nossos dias há uma alta probabilidade de começar como comédia e acabar como tragédia outra vez. Veja-se Donald Trump.
O passado tem imensas virtualidades, exactamente porque nós vivemos no presente e podemos escolher as “formas diferentes” como se faziam as coisas nesse “país estrangeiro”, usando a frase de Hartley. E é porque o passado transporta, no seu uso, a possibilidade de uma moral, de uma escolha, que é tão incómodo para aqueles que pensam que apenas podem beneficiar do presente, sem essa maçada de ter limites às suas acções. Os limites são aquelas coisas malditas como seja o saber, em vez da ignorância, a virtude em vez do vale tudo, a prudência em vez do meia bola e força, e o parar para pensar em vez do imediato e do “já” que cada vez mais pesa numa sociedade onde a adolescência se prolonga pelo Facebook e ersatzes de vida similares.
Não admira por isso que haja nos nossos dias algo que não tem precedente na nossa civilização ocidental, a que nos fez e ainda remotamente nos faz, que é o ataque aos mais velhos. Nos anos do “ajustamento”, os pseudo-jovens que tiveram a sua oportunidade nesses anos de lixo, dedicaram-se a querer empobrecer os seus avós e os seus pais, em nome de uns longínquos e putativos filhos e netos, pelos quais mostravam tanto mais amor quanto na realidade o que faziam era tirar a uns pais e avós para dar a outros pais e avós, só que da classe certa.
Tudo quanto é argumento neo-malthusiano foi usado para explicar a “injustiça geracional”, em que pais e avós hipotecam o futuro dos filhos e netos, para viverem bem no presente. Eles que eram “passado” viviam bem no presente e punham em causa o futuro. E o futuro destinado aos jovens era não ter casa, nem emprego, nem dinheiro, nem pensões, nem reformas, porque os malvados dos pais e avós não queriam perder os “direitos adquiridos”, nem as leis que protegiam o emprego, nem as suas reformas, nem o Estado Providência. Todo um argumentário conservador, que desaguava depois nos excessos da direita radical, se desenvolveu para dar um lugar ao sol não a todos os jovens, porque continuavam a ser precisos soldadores, mecânicos de automóveis, electricistas, padeiros e empregados de mesa, mas aqueles que nas elites se sentiam deserdados de um estatuto ou de um poder que lhes parecia devido, por família ou riqueza natural, ou aqueles que invejavam este estatuto de poder. Já repararam como este argumentário tem sucesso ou em jovens políticos profissionais das “jotas”, ou em pessoas que participam em “think tanks” de fundações e universidades bem providas, ou em pessoas com empregos como “consultores”, “assessores”, jovens advogados de negócios, e jornalistas da imprensa económica ou colaboradores dessa mesma imprensa ou afim. Há excepções, mas não invalidam a regra.
Um dos aspectos desta nova forma de luta de classes, na verdade a mesma de sempre, foi a minimização do saber e da experiência, tudo coisas que vem com a vida e o trabalho árduo, combate que assumiu e assume todo o seu esplendor naqueles que vivem nas chamadas “redes sociais” onde há uma ideia igualitária sobre o conhecimento, ou seja, uma apologia da ignorância. Se todos se podem pronunciar sobre tudo e por isso mesmo tudo o que dizem tem o mesmo valor, não vale a pena estudar, nem trabalhar para conhecer uma determinada matéria, basta só escrevinhar umas frases que pretendem ser engraçadas. Esta nova forma de ignorância agressiva, tem sido um instrumento para minimizar não só as hierarquias profissionais e académicas, como para dar o mesmo papel na sociedade a exercícios vulgares e superficiais mais ou menos intuitivos que se tornam virais e pela comunidade cultural entre as “jotas” políticas e as “jotas” jornalísticas que usam as “redes sociais” deles, os seus Facebooks e Twitters para “interpretar” movimentos colectivos que são dos mesmos de sempre, sendo esses mesmos muito poucos.
Há igualmente um ataque à memória, com o encolhimento sistemático do que se lembra no presente a um passado de escassos meses e anos. No limite, apenas ao que se encontra nas pesquisas do Google, ou está na Internet. O que acontece é que esse “passado” para além de ser considerado arqueológico, e portanto inútil de lembrar, afunda-se nas trevas do esquecimento. Por sobre esta memória de passarinho, crescem mitos, falsidades e memórias selectivas quase sempre instrumentais para as necessidades dos conflitos do presente. Os mais velhos são também um incómodo porque se lembram de coisas demais e de como, nesse “país estrangeiro” do passado, alguns dos próceres do presente, já mostraram o que valiam ou o que não valiam, os defeitos de carácter ou de incompetência, ou por semelhança de atitudes, podem conduzir aos mesmos sucessos ou, mais comummente aos mesmos desastres. 
Eu sei bem que isto já foi tantas vezes dito, quantas gerações passaram sobre a terra. O passado está cheio de previsões sobre de como as coisas se degradam entre os mais velhos e os mais jovens. É verdade, é quase um lugar-comum. Mas isso não significa que às vezes, às vezes, possa ser verdade. Suspeito que hoje é.

Não sou, por isso, um fã do presente, onde vivo, principalmente quando se quer esconjurar o saber, a experiência e a memória, que são coisas que precisam do tempo do passado. Não é para as pessoas voltarem à lanterna mágica, ou às televisões de caixa, ou ao Pacman, nem tenho qualquer nostalgia do stencil ou do verniz corrector, nem da máquina de escrever. Mas já tenho de homens como o esquecido e frágil Mem Verdial, com a sua gravata à Lavalière, já então tão fora do tempo, e que levou um paralelepípedo escondido para um comício da oposição a Salazar, patrulhado por um capitão qualquer que numa mesa podia interromper qualquer orador. E quando foi interrompido por dizer coisas subversivas sobre a democracia, perguntou ao homúnculo do canto: “O senhor representante da autoridade quer que eu ponha uma pedra sobre o assunto”. E pegou na pedra e colocou-a em cima dos seus papéis. É este passado que me faz falta. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Que saco!


Ando a ler os Livros Proféticos do Antigo Testamento, no Volume III da tradução de Frederico Lourenço, que a minha irmã me ofereceu, nas suas devoções de Natal, que não a impedem de prover à gula da família com o magnífico peru de sete quilos cujo interior ela recheia com castanhas, passas, pinhões, pão de forma embebido em leite, tudo muito bem-acondicionado e cozido e temperado com vinho do Porto e não sei que mais ingredientes que no forno se aperfeiçoarão em sabores divinais. Passei pelos agoireiros e plangentes livros de Amós, Oseias, Miqueias, Joel, e fixei-me em Jonas, que tinha sido mandatado pelo Senhor, para ir pregar para Nínive, submersa em perdição, e Jonas bem que tentou fugir no porão de um barco, para Pasárgada, perdão, para Társis, mas, responsável confesso da turbulência no mar, foi lançado às águas, que acalmaram, e Jonas apanhado por um peixão, que o levou a Nínive, seu destino implacável. Por lá anunciou o castigo de Deus, dentro de três dias, mas o rei de Nínive era bom ouvinte: vestiu-se de saco como todo o seu povo humano e animal e jejuaram e clamaram ao Senhor, pelo que, momentaneamente se safaram da ira divina, embora Jonas viesse a falecer, a seu pedido ao Senhor, desfalecido que se sentia, depois de tantas fugas e provações por que passara, tal como Geppetto e o Pinóquio muito posteriormente, que tiveram a sorte de a baleia espirrar, por prática incendiária do Grilo, e assim serem cuspidos, como, de resto acontecera a Jonas, mas por práticas devotas suas, no interior do peixão.
Sem ser Jonas, a mim apetece-me falar no saco do rei de Nínive, para o nosso caso de desmandos pátrios contínuos. Talvez um saco mais igualitário nas nossas ambições e safadezas servisse para merecermos ainda a salvação da nossa Nínive corrupta.

OPINIÃO
A raríssima coluna vertebral
A Raríssimas é o certificado da anomia cívica. Más notícias para os liberais.
                                Público, 13 de Dezembro de 2017
A inacreditável história da Associação Raríssimas perturba até os estômagos dos mais duros. Perturba até ao limiar do vómito. E não apenas porque revela uma confrangedora incapacidade do Estado para fiscalizar o dinheiro público: neste filme sórdido, também a sociedade civil mostrou o seu profundo deleite com a promiscuidade, a falta de exigência e a submissão a todo o tipo de abusos e prepotência. A história é um nojo porque valida a facilidade com que a corrupção e o nepotismo se instalam numa associação privada sem que ninguém fosse capaz de as travar a tempo. Sim, desta vez a culpa não é apenas do ministro, ou do secretário de Estado, ou dos políticos, ou do Governo: é também falha de uma sociedade civil tolerante aos dirigentes que exigem aos seus subordinados que se levantem à sua passagem, que ouve sem náusea nem protesto a presidente da Raríssimas dizer que o filho é o seu “herdeiro da parada”, que perante todas as suspeitas não denuncia, não questiona, não critica, não dá um murro na mesa. A Raríssimas é o certificado da anomia cívica. Más notícias para os liberais.
Nesta história de muitos vilãos há poucos heróis – uma ex-dirigente que dá a cara e dois ex-tesoureiros, com destaque para Jorge Oliveira Nunes que teve a coragem de se indignar com as manobras de Paula Brito Costa e de as tornar públicas. Não nos venham agora dizer que ninguém sabia o que se estava a passar. Se tantos famosos andaram por lá e não viram nada, não ouviram nada, não suspeitaram de nada é porque usaram esses cargos, não para serem úteis à comunidade, mas apenas para expor a sua vaidade ao público. O BMW estava à porta. Os quilómetros extra ou as facturas dos vestidos passavam pelo secretariado, passavam pela contabilidade e passavam pelo controlo da Assembleia Geral, onde gente experiente como Vieira da Silva esteve um par de anos. Ninguém viu nada, ninguém ouviu nada, ninguém suspeitou de nada?
Tudo bem, vamos às práticas quotidianas. Os funcionários sabiam que tinham de se levantar à passagem de Sua Excelência e fizeram-no sem protesto. Muitos sabiam do plano dinástico que a dona daquilo tudo que tinha na manga, sabiam das ameaças e da intimidação que fazia sobre quem questionasse a sua iluminada inteligência e, que se saiba, nunca reagiram. É esta tolerância com o abuso que torna o caso insuportável. Porque certifica a proverbial tolerância de tantos à prepotência e à corrupção. E ao relativismo que leva muitos a dizer que queixinhas e invejosos há em todo o lado. Que obrigar alguém a levantar-se à passagem da majestade é apenas uma pequena extravagância. Que alguém ter um carro pago por uma IPSS e ainda por cima cobrar quilómetros pode ser estranho, mas que é lá com eles, os de cima, os que têm desígnios inalcançáveis pelos de baixo. Que pagar com o cartão de crédito da associação roupa de marca com a justificação que a honra da Raríssimas se avalia pelo tailleur da presidente e não pelos serviços que presta também acontece noutros lados.
A existência desta cultura de subserviência, de falta de coragem, de medo, assusta. O respeitinho ganha aqui o estatuto de atitude oficial. Começa nas praxes onde meia dúzia de brutos se deliciam a humilhar os colegas e onde os colegas se submetem com deleite à humilhação. Continua na turma que aceita que os mais fortes se imponham aos mais fracos. Acentua-se nas duras disputas de acesso ao mercado de trabalho. E cristaliza-se quando chegar a vez dos humilhados se vingarem quando chegarem ao poder. Forma-se assim uma sopa mole onde a liberdade cívica, a consciência ética, a noção do dever, o respeito pelos mais fracos se esvanece sempre que aparece na cúpula uma chefe com a desfaçatez e o prazer pela intimidação como a que a presidente das Raríssimas foi revelando ao longo dos tempos. Essa forma de estar morna, de brandos costumes, limita-nos a autonomia, torna-nos queixinhas e leva-nos a pensar que a salvação da Pátria, do Mundo, está não em nós mas no Estado ou no Governo. É por isso que anda agora meio mundo a pedir demissões dos políticos. As dezenas, ou centenas, de figuras públicas que passaram pela Raríssimas escapam entre as pingas da chuva. Limitaram-se a tapar os olhos e os ouvidos. A fazer o que os “bons pais de família” fazem todos os dias.
Essa forma de estar letárgica e demissionária ajuda explicar a condescendência com que o país, todo o país, assistiu aos desastres do Verão. A morte de quatro pessoas na Galiza na vaga de incêndios de 15 de Outubro arrastou centenas de milhares de pessoas para as ruas das principais cidades; cá foi o que se viu. Mas ajuda também a explicar o branqueamento de Tancos ou o empenho de um dos mais credíveis ministros deste Governo, Vieira da Silva, em salvar a pele recorrendo ao lamentável hábito de chutar para canto. Ele não sabia de nada, diz. Acreditemos. Mas não faça de nós tolos. Dizer, como disse, que as queixas que recebeu em Agosto não revelavam actos de “gestão danosa” é pura semântica – a carta de 9 de Agosto falava de “irregularidades”, qualificativo que está longe de se enquadrar numa gestão meritória. Um ministro tem o dever político de saber o que se passa com a gestão de dinheiros públicos que gere.
Manuel Delgado, o secretário de Estado, fez o que devia: demitiu-se. Não tinha outra forma de responder ao desafio que a cidadania lhe colocava, desafio que no editorial de terça-feira do PÚBLICO, assinado por David Dinis, se colocava nestes singelos termos: “Alguém vai ter de nos explicar devagarinho como é que o Estado dá 327 mil euros do Fundo de Socorro que acabou por pagar estudos de um consultor” (o próprio secretário de Estado da Saúde).  

A vergonha, e a grande lição, que Paula Brito Costa deixa é a certeza de que neste país se pode ser como ela é e fazer o que ela fez durante anos sem que apareça alguém para lhe fazer frente. Que há maus no mundo, que há personagens de opereta com vocação para ditadores já sabíamos; mas não sabíamos que numa associação apoiada pela generosidade das pessoas e pelo Estado fosse possível abusar de forma tão flagrante e tão tolerada durante anos como na Raríssimas. Isso é que dói. Isso é que custa. O salazarismo subserviente completado pelo capitalismo anacrónico e pelo esquerdismo conservador e anestésico deu no que deu: num Estado barrigudo, labiríntico e disfuncional e numa sociedade amorfa e tolerante a pequenos ditadores. Raríssimo é haver quem, como Jorge Oliveira Nunes, tenha coragem para bater com a porta e travar alguém que se serviu da dor dos outros para pavonear a sua execrável vaidade. Uma vénia...

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Os terrenos baldios da nossa indigência


Não, não chegámos a crescer. Nem nunca chegaremos. Já no tempo de Salazar, ouvi justificar, em Lourenço Marques, que as estradas construídas recentemente, logo se esventravam às primeiras grandes chuvadas, com grande espanto meu, porque o alcatrão fora desviado por pessoal destro em desvios de utilização própria. Também ouvi falar do mestre de obras que nos caminhos de ferro de lá desviava material para construir as suas casas, e assim enriquecera. Está-nos no sangue. Ou talvez nos genes. Mas o caso seguinte, tão esclarecedor e tão bem contado – por Maria João Marques e por Helena Garrido, no OBSERVADOR, também é de estarrecer, embora já não nos espante. Não, não se trata de Raríssimos mas de Vulgaríssimos, na banalização dos desmandos nacionais e na extensão a todas as pseudo classes sociais. “Sem emenda”, segundo o Dr. António Barreto. A ausência de controlo pelas chefias mostra bem o fosso em que chafurdamos, apesar das denúncias por jornalistas corajosos e por mulheres de fibra.
IPSS                         Raríssimos políticos
Maria João Marques              OBSERVADOR, 13/12/2017
Perante tudo isto, qual a reação à esquerda? As do costume. João Galamba (palmas para a falta de originalidade) tentou colocar a culpa em cima do ministro da segurança social do governo anterior.
A TVI fez uma reportagem denunciando más práticas várias na Raríssimas. É uma IPSS com trabalho meritório, e os indícios de desvarios que lá se passaram serão investigados pelo Ministério Público e pela tutela. Mas este caso também nos permitiu ver alguns querubins da nossa política que se envolvem com instituições que recebem dinheiro dos contribuintes. Motivados, claro, apenas pelo mais assolapado amor pelo próximo.
Temos um secretário de estado da Saúde (demitiu-se; aleluia) que achou razoável receber três mil euros mensais, por largos meses, de uma instituição de solidariedade com problemas financeiros. Por trabalho vago de consultoria. Tirando casos muito particulares de trabalho a tempo inteiro, bastante especializado e com alto valor de mercado, que tipo de político considera adequado, num país onde toda a gente está sempre à míngua de fundos, receber um complemento do ordenado de milhares de euros de uma IPSS?
Temos a deputada socialista Sónia Fertuzinhos, mulher do ministro que fornece centenas de milhar de euros anuais à Raríssimas, sendo escolhida pela dita Raríssimas para uma alegre viagem a um país nórdico. (É indiferente se foi a IPSS que pagou a viagem ou se simplesmente escolheu a deputada para beneficiária do presente dos organizadores do evento.) Como é possível um político eleito não ver conflito de interesses?
E temos Vieira da Silva, ministro da segurança social, que dá montantes jeitosos a uma associação que oferece viagens à sua mulher e da qual já fez parte dos órgãos. Chefiando um ministério portador de um curioso buraco negro, onde até as cartas que denunciam atos questionáveis da dita IPSS se desmaterializam. Vieira da Silva, alma simples, nunca reparou que se pagavam ordenados exorbitantes para uma IPSS, nem que os carros não eram propriamente modestos, nem que a presidente tinha tiques megalómanos. Mas não surpreende, já que Vieira da Silva foi dos que acompanhou Sócrates sem desconfiar dos hábitos pouco consonantes com os rendimentos que lhe eram conhecidos. Talvez fosse bom começarmos a exigir políticos menos ingénuos que os que beatificamente acreditaram no conto de fadas da fortuna da mãe de Sócrates.
Perante tudo isto, qual a reação à esquerda? As do costume. João Galamba (palmas para a falta de originalidade) tentou colocar a culpa em cima do ministro da segurança social do governo anterior. E as claques começaram logo a apontar problemas ao trabalho jornalístico da TVI. (Em boa verdade, estão muito treinadas: fizeram-no anos a fio com os trabalhos jornalísticos sobre Sócrates.)
Horror, a jornalista identificou Sónia Fertuzinhos como casada com Vieira da Silva. Evidentemente é uma relação relevante neste caso, mas vamos fingir todos que é uma menorização imperdoável e machista da deputada socialista e concentrar a nossa fúria na jornalista.
Choque e pavor, a jornalista disse que um vestido de 200€ era alta costura. De facto, é um erro clamoroso. Consta que o fantasma de Christian Dior, sedento de vingança, está à procura da jornalista para a atormentar sete dias e sete noites. Um vestido de alta costura custa dezenas de milhar de euros e a marca referida na reportagem nem sequer é prêt- à-porter de luxo. Uma coisa destas desqualifica logo uma reportagem, não é? Se calhar não, porque num país onde um quinto dos assalariados ganham o salário mínimo, um vestido haute couture Elie Saab é tão inacessível como um vestido de duzentos euros. Mas enfim, não vamos pedir à nossa esquerda que perceba as vicissitudes da vida dos mais pobres, aqueles que diz representar, pois não?
Já PCP e BE, de caninos afiados, clamaram contra a existência de instituições como a Raríssimas recebendo dinheiros dos contribuintes. Afinal o Estado é que devia responder às necessidades de toda a população, certo? E de caminho enlameia-se todo o setor social privado, confundindo-o com as manigâncias da Raríssimas. Pois bem, deixo o meu testemunho. Conheço muita gente que trabalha em IPSS e ONG. É certo que não são apadrinhadas por políticos, porém nunca vi carros de luxo, nem despesas de representação, nem spas nem ordenados milionários.
Bom, para não abusar do tempo dos leitores não vou entrar na discussão ideológica que supõe que uma máquina pesada como um Estado, orientada para as suas clientelas, tem capacidade de responder a tudo. Ou, se a tivesse, se deveria.
Lembro apenas que a esquerda – que quer o Estado com monopólio de atividades que podem ser desempenhadas por instituições privadas, eventualmente com subsídios públicos (mediante fiscalização, claro) – votou, aquando da discussão do orçamento para 2018, contra a proposta do CDS de alargar de três para cinco os ciclos de procriação medicamente assistida no SNS para casais inférteis. Apesar de proclamar adorar a medida e de o aumento de ciclos de tratamento exponenciar o sucesso da PMA.
A esquerda toda – que depois do fim da austeridade (dizem-nos) se recusa a pagar atos médicos fulcrais para cerca de 300.000 casais, tão caros que pouquíssimos os poderão pagar nas clínicas privadas (para a esquerda perceber: só aqueles que sabem como reconhecer uma carteira Botega Venetta), num país com uma taxa de natalidade calamitosamente baixa – diz com desfaçatez que o estado pode suportar na totalidade todas as respostas sociais.
A falta de noção e de adesão à realidade é tanta na nossa esquerda que eu começo a suspeitar que a ideologia socialista se deve a perfis de química cerebral que produzem naturalmente substâncias alucinogénias. Os neurologistas que estudem isto. Isto e as desmaterializações no ministério da segurança social.
Raríssimas, uma história de subdesenvolvimento
Helena Garrido              Observador 14/12/2017
Num país desenvolvido as instituições teriam funcionado e a Casa dos Marcos teria sido fiscalizada. Nenhum país enriquece sendo como vimos que Portugal é no caso Raríssimas. Enriquecem algumas pessoas
É impossível evitar o tema. Pelo que expôs em todas as suas vertentes. O nosso atraso económico não está na legislação laboral, na elevada tributação ou na burocracia. Está na ausência de instituições fortes, na falta de educação e na ausência de valores. O caso da Raríssimas mostrou-nos um lado de Portugal que nos agonia, pela total ausência de valores, pela imoralidade sem consciência com que se explora o dinheiro do Estado, de voluntários e de doadores privados. É aqui que está a raiz do nosso subdesenvolvimento. Em vários dos terríveis acontecimentos que enfrentámos este ano e que culminaram com um projecto que se baseia num dos nossos mais altruístas valores, a solidariedade.
A TVI e a jornalista Ana Leal estão de parabéns assim como quem teve a coragem de denunciar a situação. São duas as reportagens que quem não viu deve ver sobre o caso da Raríssimas, a primeira “Para onde vai o dinheiro que a Raríssimas recebe” e a segunda, a entrevista ao ex-secretário de Estado da Saúde que acabou por conduzir à demissão que estava a evitar.
A primeira grande lição é que a reportagem nunca aconteceria se as instituições tivessem funcionado. Se a primeira carta não tivesse desaparecido, se o ministro Vieira da Silva tivesse actuado conforme é sua obrigação logo no Verão, uma segunda oportunidade que foi ignorada. E a entrevista, que nos faz corar por vergonha alheia, nunca teria acontecido se o sentimento de impunidade não fosse tão significativo ou se a inconsciência ética e moral não estivesse tão ausente dos horizontes de uma personalidade que chegou ao governo do País.
O não funcionamento das instituições a que foram dirigidas as queixas é, talvez, a mais grave revelação implícita do “caso Raríssimas”. Um cidadão consciente usa as ferramentas que tem ao seu dispor para denunciar “irregularidades” e vê as suas denuncias ignoradas. E depois de protagonizar as denuncias na TVI ainda ouve o ministro Vieira da Silva, que era suposto ter dado sequência às suas cartas, agarrar-se a questões de semântica: ninguém lhe disse que havia “gestão danosa”, só leu “irregularidades”. Assistiu-se ao vivo e em directo à validação da conversa de café que todos nós, com consciência da importância das instituições e dos políticos, tentamos combater: “estão todos feitos uns com os outros”.
Nunca um país se poderá desenvolver se as instituições funcionarem assim, controladas pelos interesses de um grupo de pessoas, que são supostas pertencerem à elite do país, e que afinal usam os recursos dos seus concidadãos pagos por via dos impostos ou por solidariedade como se fossem seus e para satisfazerem os seus deslumbramentos.
Não é surpreendente, dirão alguns. Não seria de facto de estranhar depois do que vimos neste terrível ano de 2017 nos incêndios, no roubo em Tancos, na mensagem da aluna que identificava a sua explicadora como tendo tido acesso aos exames e nos secretários de Estado que consideram normal irem assistir a um jogo de futebol pago por uma empresa que tem negócios dependentes das suas decisões. Mas é de ficar (ainda) incrédula porque estas denúncias nos mostraram as fronteiras que já foram quebradas, o nível baixo a que já se chegou.
Paula Brito e Costa, como se pode ler neste perfil, merece ser elogiada pelo que construiu. A partir de determinada altura a obra ultrapassou-a e ela não foi capaz de aguentar os desafios éticos e morais que se lhe colocaram. Num país desenvolvido, Paula nunca teria caído na tentação de usar a instituição e de manipular o regime em proveito próprio. As instituições não o teriam permitido nem existiriam elites para tanta promiscuidade.
Depois do que soubemos, o pior que podemos fazer é colocar todas as instituições de solidariedade social sob suspeita e, pior ainda, deixar cair o projecto da Rarísssimas. Mas precisamos urgentemente de distinguir as que funcionam focadas nos seus objectivos das que são usadas para proveito próprio. Como fazer isso? Teoricamente devia ser o Estado a garantir isso, através de inspecções da Segurança Social. Aliás, num país desenvolvido, no dia seguinte, logo pela manhã de segunda-feira, deveriam ter estado à porta da Casa dos Marcos os inspectores que chegaram na quarta-feira, sem esperarem por qualquer orientação de um ministro.
Um país não se pode desenvolver enquanto as suas instituições não forem fortes. Nenhum país se desenvolve dependendo apenas da coragem de quem põe em risco a sua vida pessoal e profissional, para aparecer a denunciar o que o Estado não quis fiscalizar, ou da força e coragem de jornalistas e órgãos de comunicação social. Os bons não podem ficar em silêncio, mas sem instituições nunca conseguirão vencer a corrupção.
Um dos piores males que se fez foi a partidarização da administração pública. Todas as soluções, de concursos a entidades reguladores independentes, têm-se revelado incapazes de resolver esse problema. Os governos chegam, instalam os seus “boys e girls” e uma nova era começa a reina no aparelho do Estado, frequentemente igual à anterior, mas com amigos novos. Quem se mantiver independente e tiver a desfaçatez de discordar em público será dispensado assim que houver oportunidade ou queimado em praça pública. Como as instituições já estão fracas, nada resiste a esta investida dos interesses.

A crise financeira de 2011 foi uma oportunidade perdida para mudar este estado das coisas que nos condena ao subdesenvolvimento. É neste ponto que estamos, um pouco sem esperança de ver Portugal reconstruir as instituições fortes de que precisa.