segunda-feira, 21 de maio de 2018

Artilharia pesada sobre os nossos ânimos leves



São de Pacheco Pereira os artigos, de uma facúndia sempre lida com o prazer que a sua análise ponderada causa. Não parecendo que bate, fustiga, com a sua calma mansa e o seu saber. E nós sentimos gosto, nesses escritos directos, de uma crítica alimentada pelo conhecimento humanístico, de zargunchada, que fere pelo certeiro. O primeiro tema está na ordem do dia, tem feito correr muita tinta dos jornais e dado azo a mesas redondas ou a entrevistas de discussões arrebatadoras, que mostram bem o baixo nível da nossa formação cultural. Tem por título «Futebol: o reservatório da violência alimentado pelo dinheiro, pelos media e pela complacência de todos», formidável libelo acusatório que envolve governo e nação e que já Fradique Mendes justifica, na citação do autor, como idiossincrasia justificativa da nossa falta de classe. O segundo tema, «O rei parece vestido», da sua – e nossa – impaciência, a que regressa, na constatação de uma presença que não aprende a moderar-se, espécie de fogo fátuo no pantanal da nossa bacoquice, é mais que justo, mas, infelizmente, arrastado pelo chão da indiferença e da toleima de quem não quer “enxergar-se”, na sua ânsia imoderada de notoriedade.

I - OPINIÃO
Futebol: o reservatório da violência alimentado pelo dinheiro, pelos media e pela complacência de todos
As claques de futebol dos grandes clubes são as únicas associações de criminosos que funcionam à luz do dia.
JOSÉ PACHECO PEREIRA
PÚBLICO, 19 de Maio de 2018
Como é que se põe uma bola para baixo quando ela está quase sempre em baixo? Na verdade, como é uma bola, está sempre ao mesmo tempo para cima, para baixo, para o lado. Mas, pensando bem, por que razão deveria estar para baixo, quando esta espuma dos dias violenta é um tão bom negócio para tanta gente? Minha cara gráfica do PÚBLICO, coloque a bola na sua posição normal, e a mais oficial das bolas, porque isto do futebol é uma coisa séria, com o beneplácito das mais altas instâncias da nação. Deixe vir o esquecimento rápido do ritmo dos media e tudo vai continuar na mesma.
Por muito que se bata no peito e se façam os protestos habituais e se digam todas as coisas convenientes, não é preciso ser um telepata nem um adivinho para perceber que são coisas de muita circunstância e pouca substância e que na verdade ninguém está muito indignado com o que se passou. Digo isto, porque coisas semelhantes ocorrem ciclicamente, segue-se uma onda de indignação e depois volta a velha complacência de sempre: “são coisas do futebol”...
Têm razão, são de facto coisas do futebol. Ou, dito doutra maneira, são coisas onde circulam legal e ilegalmente muitos milhões, muito mais milhões do que em 90% das empresas portuguesas. São um maná para uma comunicação social que não sabe viver sem futebol, ou melhor sem “este” futebol, o dos Brunos, dos Pintos, dos Vieiras, dos No Name Boys, dos Super Dragões, da Juve Leo e quejandos, que parece que tem um espasmo para não lhe chamar outra coisa, sempre que há um “derby”. São um maná para o poder político que precisa de circo quando não há pão e onde Centeno e os seus antecessores abrem os cordões à bolsa para que haja sempre surtos patrióticos a propósito da bola, cheios de bandeiras e bandeirinhas, cachecóis e varandas engalanadas, cheios de Portugal gritado a plenos pulmões, quando ninguém mexe uma palha num país que perde soberania todos os dias.
O que se passa diante dos nossos olhos, trazido pelas prestimosas televisões e por uma multiplicidade de directos na rádio e capas de jornais, não engana ninguém. Só não vemos porque não queremos ver. As claques de futebol dos grandes clubes são as únicas associações de criminosos que funcionam à luz do dia. Esta gente viola todas as leis, matam pessoas, praticam extorsões várias, organizam gangues, com negócios obscuros, droga, protecção e segurança nocturnos e diurnos, executores de vinganças e ajustes de contas, e exércitos que desfilam nas nossas ruas protegidos pela polícia como animais perigosos que de facto são. Ah! bela juventude com as nossas cores, azuis, vermelhas e verdes, a que só falta cantar a Giovinezza ou o Cara al Sol! E é mais por ignorância do que por falta de vontade.
Ai não sabem? Se não sabem, é porque não querem saber. Há futebol puro e limpo para além disto? Não, não há, isto conspurca tudo e todos são cúmplices. Eu espero sempre que nem um cêntimo dos meus impostos vá para estas mafias, nem para dar “utilidade pública” a estes empórios do crime e da corrupção, nem para pagar as medidas excepcionais de segurança dos jogos tidos como “perigosos”, nem para os bancos que perdoam empréstimos aos clubes mas recebem de todos nós milhões, e por aí adiante, mas espero sentado.
E agora prometem-nos mais uma despesa com uma Autoridade Nacional contra a Violência do Desporto para esconder a enorme responsabilidade do Estado, da justiça, dos governos, dos partidos neste estado de coisas. Quase que posso jurar que se já existisse, com os seus locais, gabinetes, pessoal pagos pelo Orçamento do Estado, nada poderia contra os espécimes que os adeptos, os sócios, as claques, as ilustres figuras públicas, escolhem para dirigir os clubes e contra os bandos de matraca e faca que eles acolhem no seu seio. O que é que impede o Governo e a justiça de agir com os mecanismos que já têm? Nada, a não ser esta miserável complacência e cumplicidade que já Fradique Mendes, numa das suas cartas onde melhor retrata Portugal, atribuía ao nosso povo:
Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós portugueses, nos enche de culpada indulgencia uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem.

II- OPINIÃO
O Rei parece vestido
O Presidente é muito narcisista, como todos sabemos, e suspeita que Costa se possa sair melhor destes tempos do que ele.
JOSÉ PACHECO PEREIRA
PÚBLICO, 12 de Maio de 2018
Custa-me acrescentar mais água ao mar de palavras que as entrevistas e intervenções do Presidente da República têm suscitado, porque, com toda a franqueza, não me parece terem nada de relevante. Talvez porque não haja muito sobre o que falar.
Comecemos pelo princípio: por que razão o Presidente, que já fala muito todos os dias e produz um metadiscurso quotidiano sobre tudo o que acontece, resolveu dar uma série de longas entrevistas a vários órgãos de comunicação social? Aconteceu algum drama político, existe uma qualquer crise previsível a curto prazo, há alguma tensão escondida nalgum lado que precise da sua palavra para deixar de ser tensão? Não e não e não.
Talvez porque, como a sua natureza de comentador tenha horror ao vácuo, ele perceba que está a mergulhar nele, com a continuidade de um ciclo político no qual o seu papel acaba por se centrar nas questões “fracturantes”, um pouco como o Bloco de Esquerda. Talvez porque desde os incêndios ele não tem estado no centro dos acontecimentos por muito que fale. E talvez seja por isso mesmo que recorrentemente volta a falar dos incêndios, acabando por produzir numa das entrevistas a mais absurda das afirmações, a de que não se recandidataria, caso se repetisse o que aconteceu nos grandes incêndios do ano passado. O que é que tem uma coisa que ver com a outra? Para além de que é muito pouco provável que se repita a tragédia do ano passado — ou seja, o Presidente vai-se recandidatar —, significa a frase que considera nula a sua influência sobre o Governo, que não faz nada do que o Presidente pediu, ou considera que, como procedeu nesses meses todos como se fosse ele o chefe do Governo, assumiria a responsabilidade pessoal pela repetição da tragédia? Não se percebe.
Como também não se percebe o seu discurso sobre os perigos do populismo, um pouco out of the blue. Sim, sem dúvida que os riscos do populismo estão a crescer em toda a Europa, mas em Portugal o populismo nunca conseguiu ter um rosto e um movimento que penetrasse no escudo partidário, em que as fraquezas dos partidos são também uma força. Aliás, a maioria das prevenções que fez, aplicar-se-iam em primeiro lugar a ele próprio, que é o único que em Portugal está numa posição de popularidade com base pessoal, e no exercício “afectivo” que tem feito da Presidência, isso, sim, típico do populismo. Para além disso, o Presidente tem uma longa história de, em determinadas matérias, ter sido sempre um defensor de posições populistas em matéria de sistema político, desde quando era comentador. Uma dessas matérias é perigosíssima e diz respeito às questões de Justiça, em que o Presidente não está muito longe do CDS quanto à celeridade da Justiça à custa dos direitos dos acusados, nem do Bloco de Esquerda, quanto ao segredo bancário e à inversão do ónus da prova.
Por último, no meio de dezenas de frases, vieram os habituais recados aqui transmitidos pela imprensa, mas que o Presidente não se tem coibido de dar a toda a gente com quem fala. Um é de que se o Orçamento do Estado não for aprovado nem à esquerda, nem à direita, convocará eleições. Claro que sim, é natural que o faça, porque isso significa que o acordo político no qual assenta o Governo, em que essa é uma obrigação de todos os partidos que o subscreveram, perdeu a sustentação parlamentar. No momento em que o Orçamento for chumbado, há um ou mais partidos que não querem este Governo e ele terá de se ir embora para novas eleições. O Presidente não tem alternativa.
Neste contexto, António Costa respondeu sempre bem ao Presidente, o que nem sempre é fácil, visto que neste combate verbal o Presidente sabe-a toda. Mas Costa disse duas coisas mortíferas para esta logomaquia presidencial e que não tenho dúvidas deixaram o Presidente mais furioso do que o habitual. Uma de que “é muito difícil interpretar a arte moderna e nem sempre é possível interpretar os discursos modernos”. Esta foi no alvo e era menos tradicional. A outra, mais comum e menos original, mas que também é má para o Presidente, é a de que “o Presidente da República não manda recados pela imprensa”. Claro que manda por todos meios.
O Presidente é muito narcisista, como todos sabemos, e suspeita que Costa se possa sair melhor destes tempos do que ele. E sabe melhor do que ninguém que os “afectos” não duram muito e não ficam na história. Por isso, responde à ameaça de vazio da única maneira que conhece: falando. Só que a fala gasta-se.


domingo, 20 de maio de 2018

Manifs.


A Paula chegou à nossa esplanada domingueira já quando estávamos para partir, damas repoltreadas numa 3ª idade sorridente de memórias de amizade e pontos de vista raramente divergentes, mas de pontualidade horária nos deveres domésticos, reflexo de disciplina antiga, nos trabalhos profissionais. Foi acolhida com natural regozijo, a Paula, por parecer mais refeita da sombria depressão que a vida docente prodigaliza, hoje mais do que nunca, e a vida em geral também, mas cujo acompanhamento médico lhe foi, ao que parece, pouco a pouco restituindo o apetite de viver.

Isso explica a surpresa da sua ida à manifestação docente, ontem, 19, ao que contou, para mais, medalhada com um papel com o indicativo garrafal de 9,5, significativo dos anos de paragem salarial na sua carreira, e conduzindo um enorme cartaz com os dizeres: À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU, o qual lhe valeu inúmeros flashes e entrevistas de turistas, que lhe perguntaram se era francesa, e lhe pediram compenetradamente explicações sobre o significado dos 9,5 da lapela. Contas feitas, o saldo da obediência sindical mostrou-se positivo, para ela, pelo menos, que se fartou de falar francês, coisa que hoje constitui agulha em palheiro, na nossa actual limitação francófona, em termos escolares e sociais.
Achámos também muita graça ao desplante da Paula na sua bem propositada paráfrase do livro de Marcel Proust, como devem ter achado os turistas integrados no cortejo, que a interpelaram e com quem falou, admirando-se da qualidade pontual das perguntas com votos de êxito nas suas reivindicações.
E veio à baila, novamente, o cortejo real de ontem, com uma das repórteres, segundo vi - o que logo me fez mudar de canal – dirigindo-se a um noivo, que escolhera o mesmo dia de Harry e Megham para se casar, e lhe perguntou , creio que em inglês, se gostaria de estar na pele do príncipe, pergunta fútil, estulta, descabida, indelicada, atrevida e mesmo obscena, nas suas múltiplas interpretações de que a malandrice não esteve ausente. Afinal um jornalista tira um curso superior, convém elevar o nível das perguntas, embora já devêssemos estar habituados, pois, apesar das reclamações dos cronistas atentos, não saímos, nas nossas reportagens de entusiasmo ou dor, do “como se sente” e pouco mais, do interrogatório impressionista melodramático e fofoqueiro, bem diverso das perguntas que foram dirigidas à Paula, objectivas e precisas, e desejando-lhe simpaticamente êxito.
Mas logo a minha irmã, purista empedernida, nos tirou a esperança de mudança, referindo os “interviram” e os “reteram” televisivos (e tantos mais) – que eu também ouvi – da boca da gente grada que nos governa, e concluímos tristemente que a maioria dos reclamantes dos seus aumentos, não merecerá, certamente, “retrouver le temps perdu”. Trabalho, sim, deve ser bem pago – sobretudo com dinheiro do nosso esforço próprio. Mas temos a obrigação de estudar também, para progredir conscienciosamente seja em que carreira for.


sábado, 19 de maio de 2018

Alhos e bugalhos, tudo se come



Não, não tem nada a ver com os assuntos da nossa lavra, mas lembrei-me de “Cem anos de Solidão”, livro bem extraordinário de mito e real, em que as personagens sobressaem no seu primitivismo de criação e força anímica, num ritmo lento e circular, mas progressivo, com origem no casal José Arcadio Buendía e Úrsula Iguarán, os fundadores de Macondo e o seu estuante pulsar de vida e de fantasia e inocência de preconceito, ao longo das várias gerações dos Buendía, a que o cigano Melquíades dará o seu contributo de progresso com as invenções do mundo lá de fora, logo adoptadas, como coisa de requinte, pelo primeiro Buendía. Não, não tem nada a ver, a não ser na solidão de um mundo que se repete, o nosso, joguete das suas forças próprias, não já de crendice e fantasia, mas de ambição ou torpeza, e pobreza espiritual, esta mais do povo, que a tendência para a piedade própria faz arrastar pelas vias do sacrifício devoto, de crença no milagre e reconhecimento pela sua concessão, nos caminhos da nossa fatídica peregrinação, habilmente estimulada pelos nossos Buendías de ocasião. Nada a ver, pois, com a tal força estuante das personagens mais ou menos grotescas da epopeia colombiana, nos cem anos de uma solidão heróica e bíblica, mas igualmente solidão, a nossa, no desespero pela repetição das nossas tradições de uma corrupção que já nenhum Melquíades poderá debelar, por muito evoluídas que sejam as suas novidades tecnológicas, impotente que é, na rede da trapaça e do logro da incultura, nosso apanágio.
Mas bem hajam os que se desvelam ainda, a salientar as nossas artes e manhas infindáveis, nos jornais cultores de opiniões, por muito escassos que sejam os seus resultados. Bem haja Alberto Gonçalves pela sua graça mordaz, alimentadora semanal da nossa continuidade menos depressiva, bem haja Luís Rosa, relembrando a nossa dependência humilhada em face da prepotência angolana, nosso destino hoje, como era de prever.
 I
SPORTING
Portugal, terra de fé /premium
OBSERVADOR, 19/5/19
Após a desilusão com um ex-governante, inúmeros portugueses resolveram desiludir-se em simultâneo com um dirigente da bola. É a nossa tradição de seguir fervorosamente determinadas fraudes.
Após a desilusão com um ex-governante, inúmeros portugueses resolveram desiludir-se em simultâneo com um dirigente da bola. Há nisto o respeito por diversas tradições pátrias. A tradição de seguir fervorosamente determinadas fraudes. A tradição de reagir com ameaças e fúria aos avisos de que a fraude é obviamente uma fraude. A tradição de admitir a fraude, de repente e com anos de atraso. Como o bêbado que, já na cama do hospital, tenta travar para não bater no poste, o discernimento dos portugueses raramente falha: demora é uma eternidade a chegar.
Também é ridículo presumir que as pessoas veneram qualquer fraude: só as demasiado evidentes. Os profetas duvidosos não são connosco. Preferimos profetas espalhafatosamente toscos, ou fancaria autenticada. Se um tipo com ar vagamente alucinado, gramática deficitária, promessas épicas e conversa fiada irrompe na cena pública, muitos contemplam o espectáculo e decidem que, sim senhor, está ali alguém a ter em conta. Quando, em dez minutos, se torna notório que o tipo é um rematado trafulha, a adoração e as ofensas aos descrentes aumentam em proporção directa. Quando, além da trafulhice, o tipo acentua os vestígios de loucura, os fiéis encontram-se capazes de morrer por ele, e sobretudo de matar por ele. Na fase em que o tipo começa a descer o Chiado vestido de Napoleão, embora troque o exílio em Elba por uma conta em Barbados, o séquito entra em transe espiritual.
Um dia, pouco antes de ingerir o cianeto que o profeta generosamente providenciou, dá-se uma epifania colectiva, o culto abre os olhos e percebe que fora enganado por um reles farsante. Desalentados, e sem pingo de vergonha, os membros do culto percorrem a via sacra das televisões, dos jornais e do Facebook a confessar o logro em que, coitadinhos, caíram. Por um triz não pedem indemnizações por danos morais.
As características dos profetas caseiros, que depois de longa reverência frequentemente desce ao carisma da lepra, incluem um vasto rol de qualidades: são desonestos nas contas, falsos na palavra, escorregadios no carácter, egocêntricos, avessos à dissidência, convictos, teimosos, ignorantes, infantis, incapazes de empatia e capazes de, no aperto, arrastar com eles o que existir em redor – o termo técnico é doidos perigosos. Às vezes, acumulam as qualidades todas; às vezes, só algumas. Quanto às características dos fiéis, o espectro é reduzido: ou são inacreditavelmente oportunistas ou inacreditavelmente idiotas. Donde a tendência para os fiéis saltitarem entre profetas. Em geral, mal terminam de ser ludibriados por um (ou uma dúzia), atiram-se para o seguinte (ou seguintes) com alma lavada e cara-de-pau. O seguinte, mais um maluco sem escrúpulos, é que é o tal e quem disser o contrário arderá nos infernos.
O engraçado não é que a História de Portugal, na política, na diplomacia, na universidade, na economia, no futebol, na filatelia e no que calha, seja uma sucessão irrepreensível de crenças assim. O engraçado é que continua a ser. Em Maio de 2018, época em que, suponho, restam escassos devotos do “eng.” Sócrates e do sr. Bruno, não escasseia o convencimento de que outros pantomineiros possuem as aptidões adequadas a conduzir-nos rumo à felicidade, ainda que os factos sugiram o exacto oposto. Dois ou três desses espécimes apareceram em ambos os apedrejamentos recentes, e, embora apeteça sonhar com o deles, pressente-se que não vale a pena: por morrer um intrujão, não acaba Portugal. Aliás, o problema é esse.

Notas de rodapé
1. Face aos acontecimentos de Alcochete ou Alfragide, o dr. Costa tomou as providências devidas e anunciou uma Autoridade Contra a Violência no Desporto. Em primeiro lugar, fica claro que quando um gangue invade propriedade alheia e comete espancamentos, o exercício é de carácter desportivo (excepto, como lembrou o meu amigo Hélder Ferreira, se o gangue for de “etnia” cigana e a propriedade um hospital: nesse caso o assunto nem chega a ser violento nem é assunto). Em segundo lugar, saúda-se que finalmente haja punições para a barbárie no sector, lacuna legal que até aqui permitia a relativa impunidade de quem matava adeptos com petardos, automóveis ou penáltis transviados. Em terceiro lugar, espera-se que os castigos se estendam aos populistas em cargos públicos que condenam a selvajaria da bola e de seguida assistem a jogos ao lado dos respectivos responsáveis. Certo é que o dr. Costa esteve impecável.
2. Uma consequência positiva do drama “sportinguista” é a exclusividade informativa, que retirou das notícias as “reportagens” sobre a embaixada americana em Jerusalém e a má vontade israelita em não se deixar exterminar pelos seus indefesos vizinhos. Aquilo é gente ruim. Como lembrava Serge Gainsbourg, quem afundou o Titanic foi Iceberg – sempre um judeu.
3. Virar a página da austeridade é um processo complexo e permanente. Implica, por exemplo, subir a cada semana o preço dos combustíveis, além de aumentar outros impostos conhecidos e criar alguns novinhos em folha. É curioso que a receita para o sucesso se confunda tanto com um fracasso – e um roubo sem precedentes. Felizmente, é para isso que existem os “media”: para evitar confusões.
 II


Uma “irritante” falta de espinha direita /premium
LUÍS ROSA
OBSERVADOR, 14/5/2018
Para um país em que a corrupção é combatida sem tréguas, deixar que lhe dobrem a espinha não é uma hipótese em cima da mesa. Foi isso que Angola tentou fazer a Portugal no caso Manuel Vicente.
1. Estava escrito nas estrelas que o caso Manuel Vicente tinha de acabar como acabou: a transferência para Angola das suspeitas de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais imputadas pelo Ministério Público ao ex-presidente da Sonangol.
Era inevitável pela pressão diplomática absurda que o novo presidente angolano João Lourenço exerceu sobre Portugal por causa de um aliado político chamado Manuel Vicente. Era inevitável pela forma como o Presidente da República (PR) Marcelo Rebelo de Sousa e o primeiro-ministro (PM) António Costa não recusaram desde logo tais jogos de pressão — pelo contrário, aceitaram entrar no jogo de Lourenço. E era inevitável porque a nossa classe política é incapaz de ter uma relação com Angola que não tenha como ponto de partida a subordinação total e absoluta dos valores do Estado de Direito Democrático aos interesses económicos conjunturais de uma relação com um regime que já foi uma Ditadura e que hoje é uma espécie de semi-democracia.
Mas não tinha de ser assim.
Começando pelo fim. É lamentável a forma subserviente como  Marcelo e Costa  felicitaram a decisão judicial poucos minutos depois de a mesma ser conhecida.
Pior: Marcelo, sempre mais exuberante (para o bem e para o mal), não só correu para o telefone para agendar uma conversa com João Lourenço conversa com João Lourenço  para o dia seguinte, como aderiu mesmo à classificação de “irritante” (da autoria do ministro dos Negócios Estrangeiros Santos Silva) para classificar de forma indireta as suspeitas de que Manuel Vicente, enquanto presidente da Sonangol, terá pago 760 mil euros a um procurador da República para arquivar dois inquéritos abertos contra si por suspeitas de branqueamento de capitais na compra de diversos imóveis.
Em suma, o PR e o PM não conseguiram esconder o seu alívio por uma decisão judicial que vai de encontro ao objetivo inicial do poder político: evitar que a Justiça portuguesa prosseguisse o seu trabalho, com o Ministério Público a exercer a ação penal que lhe compete e os tribunais a julgarem as suspeitas que estavam em causa contra Manuel Vicente.
E é lamentável por três razões simples:
Em Portugal, e ao contrário de Angola, vigora o princípio da separação de poderes. Princípio esse que foi sempre invocado por Marcelo e por Costa para não se pronunciarem sobre o caso Manuel Vicente. É pena que não tenham mantido a sua coerência até ao final — nem que fosse apenas por uma questão formal e de imagem do Estado e até que a Procuradoria-Geral da República confirmasse que não havia possibilidade de recurso;
Ao comentarem, como comentaram, o tal “irritante”, o Presidente da República e o primeiro-ministro estão a desvalorizar as graves suspeitas de que um cidadão estrangeiro (Manuel Vicente) terá alegadamente corrompido um magistrado português. Na prática, o Chefe de Estado e o líder do poder executivo estão a dizer aos seus concidadãos (e à Justiça) que as suspeitas de corrupção não podem ser encaradas da mesma forma quando estão em causa figuras poderosas estrangeiras.
Em suma, Marcelo e Costa estão a dizer: a Justiça não é igual para todos.
2. Este posicionamento do poder político ao mais alto nível só pode agravar o pessimismo com que muitos cidadãos encaram a atitude do regime português perante a gravidade das imputações da Operação Marquês e as consequências do caso Manuel Pinho revelado pelo Observador.
É totalmente contraditório o PS declarar o estado geral de vergonha perante o caso José Sócrates, a classe política em peso arrasar com o independente Manuel Pinho por ter recebido cerca de 15 mil euros mensais de um dos principais grupos empresariais portugueses enquanto foi ministro da Economia e muitos desses novos indignados ficarem aliviados por o desembargador Cláudio Ximenes ter entendido que a transferência do caso Manuel Vicente para Luanda é a melhor solução para o arguido.
Estes dois pesos e duas medidas não fazem sentido — e demonstram igualmente o nível de oportunismo das elites portuguesas, nomeadamente daqueles que têm muitos interesses nos negócios com Angola.
Não está em causa as boas relações (que devem sempre existir) entre Portugal e Angola ou a proximidade entre os povos e as economias. Está em causa, sim, um conjunto de valores que Portugal, enquanto Estado-membro da União Europeia, não pode abandonar. E entre eles está um combate sem tréguas à corrupção, à fraude fiscal e ao branqueamento de capitais — particularmente, se estiverem em causa representantes do poder político como alegados autores de tais ilícitos.
Infelizmente, não foi este o sinal dado pelo Presidente Marcelo, pelo primeiro-ministro António Costa e até pelo líder da oposição Rui Rio. Para manter boas relações com Estados amigos como Angola, não é preciso uma tremenda e “irritante” falta de espinha política por parte dos mais altos dignatários do Estado português. Ou melhor: deixarem que nos dobrem a espinha não pode ser uma hipótese em cima da mesa.
3. Mas João Lourenço, o homem que prometeu uma “cruzada contra a corrupção, também não sai nada bem deste filme.
O novo presidente angolano resolveu dar a mão a um gestor que tinha caído em desgraça junto de José Eduardo dos Santos. Presidente da Sonangol entre 1999 e 2012, Vicente modernizou a empresa pública que gere os recursos petrolíferos do país, foi indigitado sucessor de Eduardo dos Santos como vice-presidente de Angola em 2012 mas acabou por perder influência junto do clã Dos Santos. Detentor de muitos segredos sobre a indústria petrolífera angolana, foi com surpresa que se soube em Portugal que Manuel Vicente terá feito parte da comitiva que João Lourenço levou em janeiro para Davos para o Fórum Económico Mundial — e onde António Costa promoveu um encontro com Lourenço.
Tudo seria normal se João Lourenço tivesse seguido o rumo de José Eduardo dos Santos — o que não aconteceu. Em nome da tal “cruzada contra a corrupção”, demitiu os filhos do seu antecessor das posições-chave que ocupavam na economia angolana, afastou do seu inner circlegenerais como Kopelipa e Dino que representam a promiscuidade entre o Estado e o setor privado e passou a defender mais transparência para a vida pública angolana.
Este homem, contudo, é o mesmo que utilizou todos os instrumentos diplomáticos ao seu dispor para promover o arquivamento de suspeitas graves de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais imputadas a Manuel Vicente. É que, não tenhamos dúvidas, as suspeitas contra Vicente vão ser arquivadas em Angola pouco tempo depois de ‘aterrarem’ em Luanda.
Porquê? Porque a existência de uma aministia de todos os crimes económicos que são imputados a Vicente impede que a ação penal seja prosseguida contra o ex-presidente da Sonangol. E sim, caro leitor, leu bem: o ex-presidente José Eduardo dos Santos aprovou uma amnistia geral dos crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e de outro tipos de crimes com a exceção dos crimes de sangue.
Que credibilidade terá, a partir do mais do que provável arquivamento do caso Manuel Vicente em Angola, a “cruzada contra a corrupção” de João Lourenço? Não será esse um indício forte de que em Angola apenas está em causa a substituição de uma clique por outra? O futuro dirá.