quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Um poema de Fernando Pessoa (de 15 - 11 - 1908 )



A luz que vem das estrelas,
Diz — pertence-lhes a elas?
O aroma que vem da flor,
É seu? Dize, meu amor.

Problemas vastos, meu bem,
Cada cousa em si contém.
Pensando claro se vê
Que é pouco o que a mente lê
Em cada cousa da vida,
Pois que cada cousa, enfim,
É o ponto de partida
Da estrada que não tem fim.

Perante este sonho eterno
Falar em Deus, céu, inferno…

Ah! dá nojo ver o mundo
Pensar tão pouco profundo.

Parâmetros de análise:

- Temática tratada
- Divisão do poema
- Figuras de estilo
- Comparação com uma obra de arte modernista.

Um poema  que, em discurso directo, explora a temática do mistério supremo da vida, no desconhecimento que desde sempre aflige o Homem, a respeito das origens primeiras de uma realidade  ligada – ou não - a um ser espiritual criador do Céu e da Terra. É, pois uma temática de espiritualidade que nele está contida, na qual, perante o abismo que separa o Homem de uma omnisciência, o sujeito poético só pode concluir com uma exclamação e uma expressão de desgosto, no reconhecimento da pobreza espiritual humana ante o incomensurável do “Ser”.

O poema divide-se em três partes: a primeira, constituída pela quadra inicial, onde se faz uma interrogação  repetida à mulher amada sobre o significado de pertença da luz ou do aroma aos seres que os detêm – estrelas ou flor – a interrogação sugerindo à partida, resposta negativa.
A segunda parte é constituída pela 2ª estrofe – uma oitava – ainda em discurso directo, de desenvolvimento da tese sobre a problemática existencial, cada coisa que existe ou se descobre, pertencente à mesma interrogação sobre o quem e os porquês da sua passagem  na “estrada que não tem fim”.
A terceira parte – os dois dísticos finais - retomam a constatação do “sonho eterno”, o falar sem sentido daquilo que para sempre se desconhece – Deus, céu, inferno – para concluir com a frase de repúdio do homem, infinitamente pobre de saber.

- Um poema de grande simplicidade de expressão, e no entanto revelador da grande subjectividade característica da personalidade literária e humana do maior poeta e pensador do século XX português, talvez o maior de sempre, na riqueza de conteúdo e forma que cada heterónimo e ortónimo traduz – nas várias problemáticas deles representativas – mas, tal como nos poemas da 3ª fase de Álvaro de Campos, e frequentes nos poemas do  Pessoa ortónimo, de solidão e angústia pelo sentimento de impotência em face do desconhecido, neste poema também sobressaem tais sentimentos, de brandura na interpelação à amada, mas que desabam no grito final do desgosto impotente.
Assim, neste discurso subjectivo interpelativo, em que sobressai uma argumentação bastamente ponderada, como figuras de estilo pode-se apontar o animismo referente aos seres estrelas ou flor, como contendo hipotético poder criador, extensivo a cada cousa, sempre problemática, afinal, para a mente humana - nova personificação - de capacidade diminuta. Perífrase metafórica, a expressão “ponto de partida da estrada que não tem fim” . As reticências de suspensão do discurso, com a metáfora hiperbólicasonho eterno”, eis outra característica de subjectividade, antecipando a interjeição final  “ah!” seguida do discurso mordaz de desgosto.

- Eu apontaria o retrato de Pessoa por Almada Negreiros, não como expressão das angústias existenciais contidas no poema – de que o quadro expressionista “O Grito” de Edvard Munch parece ser o mais convincente - mas como homenagem a uma figura ímpar da nossa literatura e como homenagem também ao artista Almada Negreiros que tão bem soube captar os traços espirituais de um verdadeiro “senhor”, na atitude esguia e hirta e no seu cigarro, que nos leva ao poema também ímpar, da 3ª fase de Álvaro de Campos – “Tabacaria”: “Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando”  - o cigarro quase insignificante mas presente, como faúlha para sempre acesa na imensidão do seu espírito.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Saber às pinguinhas, 5



História, 8º ano,(2)
Manual: «MISSÃO HISTÓRIA (Porto Editora)

Tema: «O Renascimento e a formação da nova mentalidade»

1- Confronto com novas realidades e formas de pensar, uma das consequências, enriquecedora, da Expansão marítima.
2 – Formas de pensar medievais postas em causa, devido à imposição do conceito humanista.
3- RENASCIMENTO: (Sécs. XV e XVI): Movimento de renovação cultural na Europa, inspirado nas civilizações clássicas grega e romana, e tentando abolir o conceito filosófico medieval do teocentrismo  (Deus centro do Universo, a vida vivida em função da vida eterna).
4- Ao teocentrismo, sucede assim o antropocentrismo (o Homem valorizado como centro do pensamento e das preocupações).

II- A Itália berço do Renascimento
1-  Renascimento iniciado nas repúblicas italianas mais ricas da Itália (Florença Génova, Milão e Veneza).

2- Razões desse facto:
            - Riqueza das cidades italianas (Comércio com o Oriente, por via das rotas de caravanas de mercadores vindos do oriente ou do norte de África, e de barcos chegados a Génova e Veneza, vindos de de Alexandria e Constantinopla… );
            - Mecenato de príncipes e burgueses, rivalizando em ostentação artística (palácios, ornamentações) e proteccionista - de escritores e artistas;
            - Presença em Itália de sábios gregos e bizantinos que preservaram a cultura clássica de que os seus países foram berço, juntamente com a Itália.
            - Existência de muitas  Escolas de Arte e Universidades;
            - Vestígios de monumentos romanos inspiradores dos artistas.

3- Expansão do Renascimento cultural e artístico pelo resto da Europa nos século XV e XVI .
4- Em Portugal, o Renascimento é mais tardio, em consequência dos Descobrimentos. (Foi o poeta Sá de Miranda o introdutor do Renascimento literário em Portugal  - o doce estilo novonão só nas formas poéticas (soneto, decassílabo, alexandrino, écloga, elegia, comédia…), como nas temáticas do amor, da beleza, da natureza, da mudança, da efemeridade…).
III – Os novos valores da mentalidade renascentista:

( Definição de conceitos: Humanismo: Valor da mentalidade renascentista que valorizava o ser humano e as suas capacidades. Classicismo: Tendência artística e literária inspirada nos modelos da Antiguidade clássica (civilizações grega e romana): abrange três séculos: Renascimento (séc. XVI); Barroco (séc. XVII); Iluminismo (séc.XVIII). Espírito crítico: Princípio segundo o qual não se devem aceitar teorias ou factos sem os compreender e sem apurar a sua veracidade. Heliocentrismo:  Teoria defendida por Copérnico segundo a qual o Sol é uma estrela fixa em volta da qual giram aos planetas. (Oposta ao Geocentrismo medieval (defendido por Copérnico)
Pondo a Terra no centro do Universo, eos corpos celestes, como o Sol, girando em seu redor ).

1- Interesse dos intelectuais europeus dos séculos XV e XVI pela cultura clássica, valorizando as capacidades do ser humano (Humanismo).
2- A mentalidade renascentista marcada também por outros valores, como: classicismo (regresso aos valores da Antiguidade Clássica, copiando e interpretando os temas e as formas da literatura e da arte greco-romanas; individualismo (a pessoa deve valorizar-se pelas suas qualidades e actos, com desejo de fama e glória); o espírito crítico (valoriza a razão e o pensamento, pondo em causa os dogmas e o saber livresco).
3- A mentalidade renascentista defende uma abertura face ao conhecimento e aos estudo de todas as áreas do saber; o homem reconhecido socialmente deve ser completo e perfeito, com uma boa formação cívica, intelectual e física, segundo o lema latino “mens sana in corpore sano” (=espírito  são em corpo são). O “Homem ideal” do Renascimento (“l’Honnête Homme”, em francês) deve saber estar à mesa, ser cordial, ser simultaneamente um poeta, um erudito e um guerreiro. Leonardo da Vinci e Alberto Moravia exemplos de formação integral).

4- A valorização da experiência
 - Os humanistas defendem que todo o conhecimento deve ser confirmado poela razão e pela experiência.
- A observação da Natureza e a valorização da experiência contribuem para o desenvolvimento de muitas ciências, através de descobertas como o heliocentrismo, que teve grande resistência, sobretudo da Igreja, que dominava o ensino.

IV- O Humanismo e a renovação literária
1- Restauração, tradução e comentário de obras clássicas feitos pelos humanistas, originando novos conhecimentos (enriquecidos pelas descobertas científicas que a expansão proporcionou), origem da renovação literária.
2- Exemplo de humanistas:
Erasmo de Roterdão, um dos mais importantes humanistas do século XVI. No seu livro  O Elogio da Loucura”, critica ironicamente a corrupção do clero, dos reis, cortesãos e mercadores, apelando à recuperação de valores como a humildade, caridade e fraternidade.
O inglês Thomas More escreve “Utopia”, inspirada nas ideias do filósofo grego  Platão, idealizando um reino-ilha cuja sociedade funciona de modo justo e perfeito.
Autores italianos do Renascimento: Petrarca (séc XIV); Pico della Mirandola; Baltasar Castiglione; Nicolau Maquiavel (Obra: «O Príncipe”, inspirador do absolutismo dos reis).
Autores ingleses: William Shakespeare, dramaturgo, autor de Hamlet, Otelo, Macbeth, Romeu e Julieta, O Rei Lear (inspirador de «Leandro, rei da Helíria» da Alice Vieira,).
Autores espanhóis: Miguel de Cervantes , autor de “Dom Quixote de la Mancha), o poeta Quevedo
Autores  Franceses: Rabelais, autor de Gargantua et Pantagruel, de grande mensagem crítica (Frase de Rabelais: “A ignorância é a mãe de todos os males”;  Montaigne (Ensaios”): destaca o valor da cultura, e a capacidade de saber julgar e duvidar, até mesmo a autoridade dos Antigos.
Autores portugueses: Luís de Camões, Sá de Miranda (poetas); historiadores: Damião de Góis, João de Barros; as mulheres humanistas Joana Vaz, as irmãs Luísa e Ângela Sigea, Paula Vicente, filha do dramaturgo Gil Vicente. Fernão Mendes Pinto, autor do livro de viagens pelo Oriente “Peregrinação”, embora de escrita ainda não clássica.

3- Difusão das ideias do Renascimento: Essa difusão é beneficiada pela invenção da imprensa por Gutemberg, em 1445, que permite produzir livros mais baratos e em maior quantidade.
As ideias humanistas são difundidas nas cidades europeias, como Paris, Roterdão, Oxford, Cambridge, Lovaina, Vitemberga…

Notas: A xilografia era praticada pelos Chineses desde o século VII: usavam uma prancha de madeira para gravar imagens e textos, que podiam ser reproduzidos por estampagem. No séc. XI, Bi Sheng, ferreiro e alquimista, aperfeiçoou a técnica, criando caracteres móveis.
A invenção de Gutemberg: Gutemberg pretendia apenas descobrir um processo que fosse mais eficaz na manufactura dos livros, sem prever as extraordinárias consequências do seu invento. No final do séc. XV mais de 250 cidades europeias tinham oficinas de tipografia a funcionar. (Alberto Labarre, História do Livro).

(Fonte: Internet): O primeiro livro impresso com a técnica de Gutenberg é chamado de Bíblia em Latim. O livro tinha 641 páginas que foram forjadas em letras em chumbo e arranjadas manualmente. A Bíblia de Gutenberg foi impressa com estilo de escrita gótica. Foram feitos cerca de 300 exemplares do livro, todos com detalhes minuciosos desenvolvidos pelo alemão Johannes Gutenberg.

V- A ARTE DO RENASCIMENTO
1- O Renascimento também se reflectiu na arte, quebrando a tradição medieval de religiosidade e didactismo, num retorno aos modelos clássicos greco-latinos:
1.1- Características gerais da arte renascentista:
- Classicismo: regresso à representação do nu e dos temas mitológicos.
- Novos valores humanistas, defendendo queo homem é a medida de todas as coisas”.
- Novas soluções técnicas: perspectiva; preocupação com o rigor e a perfeição.
- Novos cânones (ou seja, regras e proporções) para a construção de edifícios, assim como para a criação de esculturas e pinturas.
- Naturalismo e realismo: as figuras esculpidas em semelhança com a realidade.
- Proporcionalidade: as esculturas podem atingir grandes dimensões, mas respeitam sempre as proporções dos corpos.
-Composições geométricas: as esculturas inserem-se em formas geométricas, como pirâmides, quadrados ou rectângulos (Ex: Pietà de Miguel Ângelo (composição inserida em pirâmide): exposta na Basílica de S. Pedro no Vaticano (1499). O artista tinha 23 anos, foi a sua primeira grande encomenda religiosa. (pág. 66)

1.2- Principais características da arte renascentista presentes na arquitectura, escultura e pintura: harmonia, equilíbrio e ordem.
(Este movimento surgiu em Florença, no início do séc. XV e espalhou-se na Europa.

a) Arquitectura renascentista:
Aplica um conjunto de elementos inspirados nas construções clássicas, sobretudo romanas: Monumentalidade dos edifícios, arco redondo, cúpulas de sobreposição de ordens (dórica, jónica, coríntica).
Principais características da arquitectura renascentista:
- Uso de arcos de volta perfeita ou redondos; utilização de cúpulas e cobertura em abóbada de berço; aplicação de frontões triangulares nas fachadas;  uso de colunas e pilastras (=pilar fundido numa parede) com capitéis clássicos (das ordens dórica, jónica e coríntia: uso de cornijas e balaústres a coroar os terraços. A impressão de horizontalidade nas construções.
Pág. 64: 1- Foto da Catedral de Santa Maria das Flores, em Florença (exterior e interior) (1420 e 1436): A sua cúpula serviu de inspiração a Miguel Ângelo para construir a cúpula da Basílica de S. Pedro, no Vaticano.
2- Elementos estruturais da arquitectura renascentista representados num edifício em corte.
b) Principais características da escultura renascentista:
1 - Corpo humano representado com rigor anatómico, (devido aos progressos da medicina). Os principais temas da escultura eram inspirados na Antiguidade clássica. O gosto pelo nu explica-se pelo desejo de representar a perfeição do corpo humano.
2 - A escultura deixa de ser apenas um elemento  decorativo da arquitectura e passa a ter valor por si e os escultores valorizados como artistas: Andrea Verrochio, Donatello e Miguel Ângelo - alguns dos principais escultores da Renascença italiana.
c) A pintura renascentista
1- O Renascimento foi um dos períodos mais ricos da pintura na Europa, com novas técnicas e formas de representação da realidade.
2- Principais temas inspirados na Antiguidade: cenas da mitologia, mas também temas religiosos e, motivada pelo individualismo e pelo mecenato, a pintura de retratos.
3- Os principais pintores renascentistas italianos: Botticelli, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo e Rafael. Da Flandres: Van Eyck, Jerónimo Bosch e Brueghel. Da Espanha: El Greco. Da Alemanha: Dürer e Holbein. De Portugal: Nuno Gonçalves.

Pág. 66:  Retrato da Gioconda:
Características:
Novas técnicas como a pintura a óleo (inventada pelos pintores flamengos. Representação da terceira dimensão através da perspectiva. Aplicação da técnica do sfumato, envolvendo os espaços e figuras mais afastadas numa espécie de névoa. Realismo e naturalidade das figuras. Proporcionalidade das formas (aplicação de cânones).

VI- Como se caracteriza a arte portuguesa dos séculos XV e XVI:

1- Os séculos XV e XVI marcados pela permanência de formas e modelos da arte gótica.
2- No reinado de D. Manuel I desenvolveu-se estilo arquitectónico chamado de arte manuelina (baseado na estrutura gótica, mas com uma decoração naturalista e alusiva às viagens marítimas da expansão e aos símbolos nacionais do reinado de D. Manuel I)
3- Os elementos decorativos mais usados ligam-se ao contexto dos Descobrimentos e de afirmação do país: elementos marítimos (redes, cordames, conchas, barcos, algas, incrustações de coral) e símbolos nacionais (esfera armilar, cruz da Ordem de Cristo, escudo real). Há também muitos elementos naturalistas (raízes, troncos, folhagens) que já existiam no estilo gótico.
4- Principais edifícios com elementos do Manuelino são: o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, em Lisboa, o Convento de Cristo (Janela) em Tomar, e o Convento de Jesus em Setúbal (Imagens na pág. 68)

VII- A arte renascentista em Portugal
1- A arte renascentista em Portugal foi mais tardia, só se desenvolveu a partir do reinado de D. João III (1521-1557).
2- Alguns dos monumentos mais representativos da arquitectura renascentista em Portugal são: Ermida de Nossa Senhora da Conceição, em Tomar (imagem p. 69: características renascentistas de horizontalidade, frontão triangular, arco redondo), a Igreja da Graça em Évora, os claustros do Convento de Cristo em Tomar, e os claustros do Convento da Assunção em Faro. Nas sés de Miranda, Portalegre e Leiria são também notórias influências renascentistas.
3- A pintura recebeu influência dos flamengos, talvez porque Portugal tinha uma feitoria na Flandres.
4- A escultura e as artes decorativas receberam influência italiana.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Panóplia lírica



Infelizmente não se trata da definição de “Loucura”, aplicável a D. Sebastião, por Fernando Pessoa na sua Mensagem:
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?
 Não, não  se trata dessa elegante loucura, que define o homem fazedor de feitos – ainda que se revelem ruinosos - mas, no nosso caso, apenas de maldade arrogantemente provocatória, da parte de uma gente alinhada com o poder que o Dr. Costa lhe concedeu - em benefício próprio, é certo - e que grita alto e bom som esses valores de apoio soez a um prepotente sem escrúpulos, como o faria no caso de outros quaisquer ditadores de crueldade impune, mais para mostrar as garras contra uma direita para esses sempre significativa de avidez, ainda que muita da sua fortuna tenha sido proveniente de  trabalho honrado e muita da miséria por esses defendida  seja significativa apenas de mândria ou desmazelo.
O artigo desta semana de Alberto Gonçalves, na sua indignação pela cobardia ou subserviência das gentes - domesticadas umas - as do grupo PSD - outras apenas provocatórias, nas suas loas a um seguidor da doutrina maquiavélica dos fins justificativos dos meios, chama a atenção para uma dessas personagens como sempre as houve, de “poetas” encomiásticos, que me trouxeram à lembrança um velho artigo de “Cravos Roxos” (1981) que transcrevo, considerando assim o eterno ciclo humano, sempre igual, sempre repetitivo, tal como o faz o ciclo das estações do ano - com perdão para estas, naturalmente, cujas belezas repetitivas não podem admitir paralelismos desconchavados - os desconchavos humanos esses sim, próprios da “besta sadia, cadáver adiado que procria” que em todos os tempos houve. Lembrei-me desse texto mas, de modo nenhum pretendo equiparar os dois poetas da minha prosa antiga com o poeta descrito por Alberto Gonçalves - o intelectual Boaventura Sousa Santos – de valores culturais mais vastos, como Alberto Gonçalves revela, em exemplos de “perder o tino, a armar ao fino” da expressão de Camilo de Oliveira e Ivone Silva.
Eis o texto de “Cravos Roxos”:
“Os Homens, os livros e as coisas” e a falta de honra
«Há na nossa RTP um programa juvenil - “Os Homens, os livros e as coisas”- apresentado por um distinto jovem defensor dos novos poetas a reverenciar – os poetas africanos lacrimejantes e vociferantes por conta do seu povo ou os poetas portugueses vociferantes e lacrimejantes por conta do povo dos poetas africanos.     
A atitude é válida – dá um certo arejamento modernizante à programação televisiva – mas naturalmente facciosa, enquadrada na linha de orientação política da TV portuguesa e dos modernos intelectuais portugueses,  as palavras roncantes “fraternidade”, “democracia”, “liberdade” e quejandas, geralmente encobridoras de ódios e frustrações pessoais, pretendem apagar as outras mais discretas mas eternas, como sejam o amor da pátria e da família.
Por esse motivo o programa juvenil “Os Homens, os Livros e as Coisas”, como se não houvesse algo de mais nobre a oferecer aos jovens, quase se limita à expansão de poetas que ululam invectivas contra os exploradores e achincalham desse modo a pátria portuguesa, esquecidos de que a pátria portuguesa o foi igualmente de navegadores e de construtores de mundos novos, embora também, é certo, «hélas!» de ululadores cultivados às mesas dos cafés palreiros e esterilizantes. Indivíduos sem brio nem dignidade, cuja cobardia moral e física explica as suas maneiras de pseudo-fraternidade , mostram-se imbuídos de um pseudo-intelectualismo amaricado à moda, mas realmente escasso de intelecto, que os leva a ampliar uns factos e a distorcer outros, sem equilíbrio nem pundonor.
O programa de 27 de Janeiro foi elucidativo sobre esse ponto. Nele depuseram dois jovens poetas – Jorge Monte Cide e Jorge Vaz de Carvalho – que analisaram a sua evolução espiritual de militares combatentes contrariados em Moçambique.
O primeiro, Monte Cide, é um poeta da velha guarda, do bom versinho rimado a eito, onde cadeira rima aconchegadamente com esteira e com palmeira, capulana com cana, cansaço com espaço e os gerúndios entre si, v. g. dançando com batucando, com falando, com matando. A ingenuidade do estilo denunciando o primitivismo da mente, levou o seu apresentador ardilosamente a abordá-lo com discrição, receoso de qualquer “gaffe” em prosa que lhe aniquilasse o seu programa lírico.
Jorge Vaz de Carvalho falou-nos mais de si, dos seus anseios e da sua evolução espiritual. Na adolescência trocou Camões por José Gomes Ferreira e o facto marcou-o a ponto de o imitar nos seus versos, embora eles atestem um radicalismo mais extremista do que ultra-romântico autor  seu mestre.
Com efeito, assim é. Tal como Gomes Ferreira que tanto afirma sofrer com a miséria alheia – e o repete monotonamente ao longo dos seus milhares de versos, bramando e gesticulando cheio de gana, Vaz de Carvalho apresenta esta formidável tirada, sem dúvida fruto de uma pueril megalomania:
milhões de homens a sofrerem por mim… recuso-me
Mas porque se recusa, propõe-se resistir… “com amor”… “até que rigorosamente vermelhas as bandeiras amanheçam”.
Verificamos por aqui que a bandeira verde-rubra que como soldado jurou certamente defender, nada significa para ele, especialmente votado ao vermelho rigoroso.
Também a fraseologia surrealista à Gomes Ferreira não está ausente dos seus versos. Citamos “sem olfacto de jasmins” ou o rouxinol que ao morrer deixou cair a cabeça, “que os braços ergueram-se para afagar o sol”, anomalias biológicas sem efeitos violentos sobre as estruturas sociais.
Vaz de Carvalho não admite a poesia como criação artística pura, ao pretender para ela apenas um carácter intervencionista, de “engagement à la page”.
Daí que à pergunta do seu apresentador sobre a sua actividade actual no domínio da arte após o 25 de Abril, ou seja, após a entrega dos territórios de além-mar aos pretos que passarão civilizadamente a eliminar a esteira e a capulana – e provavelmente também a palmeira – do seu uso pessoal, e a entrega da pátria à tal bandeira rigorosamente vermelha e niveladora (a descontar as cúpulas), o novel poeta tenha denunciado a crise da sua produção artística actual que retomará, a bem das letras, com a visita das musas por ora arredias.
A pergunta foi inteligente, embora de modo nenhum insidiosa, porque apenas amigável. De facto, esgotados os motivos de revolta para os intelectuais e artistas de pacotilha, agora que obtiveram a tal sociedade onde não haverá mais exploração nem miséria – a que houver, com a mudança de responsabilidades tornar-se-á – felizmente para a literatura – mais aceitável – poder-se-á perguntar-lhes qual a temática sobre que irá incidir o seu génio artístico, já que ele não tem manifestado acesso senão a essa tão decantada da miséria, das injustiças e da exploração do homem de certas esferas e da mulher de todas as esferas pelo homem injusto e explorador de todos os tempos.»

O artigo de Albero Gonçalves:
Os amigos do povo português
DN, 4/12/16
Zelosa, a AR aprovou não um, mas dois votos de pesar pela morte de Fidel Castro, dois votos mais do que o sujeito teve em 90 anos de vida. O voto do PCP (que louvou o "ideal e projeto de construção de uma sociedade justa e solidária" e o "amigo do povo português") contou com a aprovação de todos os deputados comunistas, BE incluído, a oposição do CDS e, com poucas excepções contrárias, a abstenção de PSD e PS. Quanto ao voto do PS (que refere o "intenso e apaixonado debate entre os que aderem e os que se opõem" ao "percurso ideológico e político" do falecido), foi aprovado pelo PS (menos Sérgio Sousa Pinto) e pelos partidos comunistas, com a oposição do CDS e, com poucas excepções contrárias, a abstenção do PSD.
Duas ou três coisinhas. Não espanta a unanimidade de PCP e BE, tanto a decidirem em rebanho como a exaltarem um assassino particularmente cruel e um dos maiores inimigos de liberdade no século XX. Começa a não espantar o apreço de boa parte do PS por ideologias totalitárias, que se tornou óbvia após a aliança de Novembro de 2015, embora não tenha nascido aí. É bastante deprimente que, por omissão, além da cobardia e da pura idiotia, até o PSD - e, que eu saiba, Pedro Passos Coelho - legitime tamanha vergonha.
Contas feitas, directa ou indirectamente, cerca de noventa por cento dos representantes do povo acham Fidel digno de encómios - ou no mínimo toleram-nos. Ou a representatividade é uma fraude, ou é oficial que quase todos os portugueses defendem regimes fundamentados na prisão, tortura e morte de dissidentes, na perseguição de minorias sexuais e religiosas e, para os afortunados, na mera opressão quotidiana, na censura e na miséria extrema. E em bailaricos de salsa.
Perante este cenário sem esperança, resta apurar se os portugueses serão vítimas de circunstâncias desafortunadas ou se merecem acabar mal. Porque não haja dúvidas: com a alucinada gente que manda nisto, isto vai acabar mal. Entretanto, no regresso de um feriado feliz, o país celebrou-se a si mesmo. Não nos falta orgulho no passado. O que nos falta é futuro.

Quinta-feira, 1 de Dezembro
Versos vermelhos
Já é embaraçoso que um adolescente dedique poemas à namorada, à vizinha, à mãe ou à menina que o atende na loja da Meo. Mas que espécie de distúrbio leva um adolescente apenas mental a dedicar poemas a um velho milionário que vivia nas longínquas Caraíbas? Por outras palavras (e que palavras, Nossa Senhora!), o intelectual Boaventura Sousa Santos escreveu uns versinhos, em rima branca, ao falecido Carniceiro de Havana e nem uma junta psiquiátrica conseguirá explicar porquê. O lado positivo disto é que o dr. Boaventura escreve tão mal quanto pensa e, escusado acrescentar, o poema é uma galhofa pegada. E é a segunda vez numa semana que Cuba nos proporciona alegrias.
Sabia-se há muito que a veia lírica do dr. Boaventura rivalizava em grotesco com o seu trabalho académico. Dos remotos poemas eróticos ("faz parte desta gota/ ser a taça e alagar-se/ faz parte deste cisma/ ter entranhas e sujar-se/ faz parte deste coito/ estar a um canto a masturbar-se") às incursões pelo rap ("Jesus caminha/ caminha com alguém/ que pode ser ninguém/ Allah caminha/ nas ramblas de granada/ e não acontece nada"), o homem é um mestre do humor involuntário.
É também, sob determinada perspectiva, um sujeito invulgar. Qualquer pessoa que tivesse perpetrado semelhantes atentados à literatura fugiria sem deixar rastro no dia em que os visse cair no domínio público. Em geral, as pessoas têm vergonha. Na "poesia" (desculpem) e no resto, o dr. Boaventura não tem vergonha nenhuma. Por isso, mal o cadáver do ditador arrefecia e, a partir de um cantinho da Universidade de Coimbra, o mundo era abençoado com nove estrofes, livres e com antecanto, em louvor dele.
Não disponho de espaço para divulgar a peça na íntegra. Limito-me a notar que "Na morte de Fidel" contém referências a "comboios da imaginação", "manivelas de razão", "barcos polifónicos", "mobílias espirituais", "turismo de acomodação", "supermercados" e, claro, "azeite puro". Se o conteúdo parece saído de experiências médicas, o objectivo é óbvio: o dr. Boaventura presta vassalagem à causa que serviu a vida inteira, leia-se o despotismo de esquerda. O dr. Boaventura só não publicou um soneto sobre o Violador de Telheiras porque o tipo não desgraçou gente suficiente e, para cúmulo, se calhar vota no PSD.

Sábado, 3 de Dezembro
Um crime hediondo
Parece que dois pináculos do orgulho pátrio, Mourinho e Ronaldo, protegeram os rendimentos em offshores para fintarem os impostos. Quem o diz é o Expresso, na convicção de que se seguirá a indignação da praxe. Não duvido. Por algum motivo, certas pessoas ofendem-se imenso com os "paraísos fiscais" e pouquíssimo com os infernos fiscais que lhes deram origem. No sistema de valores em vigor, querer guardar o que se ganhou através do trabalho é mau; deixar que o Estado saqueie o que puder do trabalho alheio é bom. Faz sentido? Faz, principalmente se pertencermos ao grupo, cada vez mais vasto, dos que não trabalham de todo. Ou, pior ainda, dos que têm um trabalhão para que o saque continue.