quinta-feira, 27 de abril de 2017

Eleições da transparência



Histórias de hoje na “Angola é nossa” de ontem, enviadas, talvez com carinho, talvez com um sorriso, por João Sena, através de email.
Nacos soberbos de prosa, tão válida como outra qualquer, - e igualmente inútil - que servirão eventualmente para nos libertarmos de momento das Marine Le Pen e dos Donald Trump da nossa perdição e entretenimento diário, e regressarmos aos que foram nossos e afinal amámos e deixámos entregues a si próprios, nas tropelias ambiciosas com que os mais espertos conseguem sempre favorecer-se, cá como lá. Deixemo-los nas ficções do seu envolvimento, nos arrazoados dificilmente entendidos, apesar de bem intencionados das suas pretensões. Há um que sai, ao que afirma, mas deixa afilhado. E cada um irá estrebuchando, agarrado a valores, agarrado a palavras que flutuarão e cairão como chuva de confetti, sobre as cabeças curiosas ou resignadas, em breve amassados no chão das indiferenças e da continuidade. O mundo continuará rolando, na graça e na desgraça. E por isso, as palavras da canção, que já pertenceu ao patriotismo português, poderão sempre aplicar-se com igual garra aos angolanos de hoje, com o mesmo brio lutando pelos seus direitos. Porque o resto… são sempre cantigas…
Angola é nossa gritarei
É carne, é sangue da nossa grei
Sem hesitar, p'ra defender
É pelejar até vencer

A RAZÃO DE ISAAC DOS ANJOS
A EMENDA PIOR QUE O SONETO
O maior problema de Angola não é Cabinda, mas sim Benguela. Benguela tem donos… são todos aqueles que se sentem benguelenses! Benguela é essencialmente, desde os tempos remotos, uma cidade bairrista. Basta olhar para a história colonial portuguesa, do tempo de Manuel Cerveira Pereira e após a independência de Angola, para concluir que Benguela sempre foi uma cidade de luta permanente, de revolta, do contra, de vontade própria, de integração social, de famílias e de histórias. Tal como o Porto em Portugal, Barcelona em Espanha, Nice em França e a Beira em Moçambique, Benguela foi sempre assim… Bairrista e ganhadora. Benguela é a única cidade em Angola bairrista que produz benguelenses. Todavia, não é possível governar Benguela sem se sentir de corpo e alma benguelense
O Isaac dos Anjos, governador da província de Benguela não é benguelense, como se diz à  boca pequena, pode ser considerado um infiltrado identificado em Benguela.
Não tem sentido de Estado, de responsabilidade e com muita facilidade se despe da sua função ou cargo e se coloca na condição de cidadão comum. É absurdo o governador de Benguela dizer que os benguelenses são intriguistas, fofoqueiros donos do seu próprio espaço (verdade) e que dorme tranquilo. É absurdo ver Isaac dos Anjos, manobrar para abafar os seus interesses que são contrários aos de Benguela.
Isaac dos Anjosgovernador da província de Benguela e 1º Secretário do MPLA, deveria se lembrar de que seu maior parceiro é o povo de Benguela que o elegeu, no conjunto. Nas próximas eleições, previstas para Agosto/Setembro, será óptimo que o povo se esqueça desta parceria.
Isaac dos Anjos, tornou-se um desconhecido, não mais a pessoa em que Benguela também votou e depois depositou suas esperanças.
A sua indiferença e o desprezo está a alcançar patamares superiores e não imaginados por Kundy Payhama e sua Trupe.

EM BENGUELA O MPLA PEGOU FOGO – FOGO POSTO
Em plena reunião do Comité Provincial do MPLA, quarta-feira, dia 07 de Abril de 2017, a crise política atingiu o seu ponto extremo e o risco do MPLA esboroar-se aumentou substancialmente perante os olhares impotentes dos presentes.
Aderito Areias arregaçou as mangas e explicou direitinho a Isaac dos Anjos o que tinha, há muito, entalado na sua garganta. A briga foi muito feia. No centro do debate bem aceso, com a plateia a aplaudir, estavam as fofocas e as intrigas dos benguelenses proferidas pelo governador Isaac dos Anjos em vários fóruns. Aderito Areias expôs sem medo e com clara independência o lamentável estado de Benguela, a humilhação à qual os benguelenses estão sujeitos e a importância e necessidade de Isaac dos Anjos se retratar perante um povo guerreiro. Confusão total instalada, com Carlos Vasconcelos “Cacá” a tentar pôr ordem no circo. Deveras humilhante e desprestigiante para Isaac dos Anjos. Mas ficou claro que Isaac dos Anjos não goza de apoio no seio do partido.Demita-se Isaac dos Anjos!!! Pois, tem muito mais a ver com a sua natureza. Não foi capaz de o fazer (com justa razão) aquando da reunião sobre a Lei de Terra, realizada em Luanda, com a presença de todos os membros do Governo, quadros intermédios e sobas, mas fá-lo-á certamente agora, por duas razões: foi confrontado e humilhado por todos os membros presentes na reunião do Comité Provincial e segundo, não morre de amores por João Lourenço, cabeça de lista do MPLA para as eleições de Agosto/Setembro de 2017. Mais uma vez o MPLA vai perder em Benguela, a favor da UNITA e da CASA-CE, sem esquecer, obviamente, o elevado nível de absentismo
Este não é um bom tempo para Isaac dos Anjos e os seus comandados. É muito difícil reagir em situações assim, mas o Isaac dos Anjos escolheu o pior caminho. Existe uma história que não se poderia suspeitar fosse uma característica presente entre seus principais chefes.
Benguela há muito que mudou. Os benguelenses não querem ficar mais à mercê dos desmandos de sucessivos governantes.
Precisamos continuar acreditar em Benguela com todos os benguelenses de Benguela. Proceder de forma correcta, diz respeito ao proceder de toda uma vida de dedicação incansável à causa pública e aos elevados interesses desta Benguela.
Isaac dos Anjos, apesar de tudo, tem carácter.
Francisco Rasgado / Babalada

RECADOS AO CHEFE!
Afinal muito se disse com relação ao Estado da Nação, e que caminhos trilhar para devolver o sonho e a esperança de um Povo, na plena conquista da irradiação da pobreza, da felicidade e do bem estar e da justiça social, elegendo como pilares a Saúde e a Educação, sem dispensar o efémero combate à corrupção.
Todos estes aspectos, implicariam uma serena discussão e a abordagem da vitalidade da nossa democracia, do Estado de direito e do compromisso escrupuloso em cumprir e fazer cumprir a lei e a constituição.
Neste momento da viragem, tudo o que ouvimos do Cabeça de Lista, no essencial, satisfaz e agrada cabalmente quase que a maioria, pois vai de encontro ao corrigir o que vai mal, e da despartidarização da sociedade, dos excessos de poder centralizados, da ausência de supervisão e de responsabilização civil, e da separação dos poderes, da exaltação do mérito e da competência e do fomento das oportunidades, do esbater das desigualdades e dos desequilíbrios da distribuição da riqueza, e relança igualmente com premência a importância do poder regional ou das autárquicas.
Contudo e se nos lembrarmos de alguma forma, tudo ficou amarrado, isto num jargão popular, pois  na nossa idílica aposta/consulta através dos não menos célebres e por vezes opacos comitês de especialidade, que putativamente, ao invés de com perspicácia procurarem ter dado subsídios coerentes e pertinentes ao poder executivo, fez-nos desaguar neste labirinto em que nos deparamos, não resistindo também eles na sua génese, no descaminho do clientelismo e de contribuições avessas ao primado da noção tecnológica e de competência, e ferindo a expressão soberba e impoluta das especialidades que encerravam.
Portanto, hoje, a pergunta será saber se, e apenas, do digníssimo Cabeça de Lista e sua distinta equipa, se socorrerão em exclusivo do envolvimento e subsídios dos diferentes comités, ou se nesta nova roupagem e dinamismo que emprestam na esperança de mudança, estarão com mestria aptos e disponíveis, para que de forma desinibida, e descomprometida, os diferentes grupos de especialistas Nacionais, e desde logo com genuína anuência para considerar estes outros também válidos, e com reconhecido sentido patriótico e de estado, (sendo muitos igualmente e sabidamente do MPLA) e assim sectorialmente e na dinâmica deste processo, ter um marco relevante e de afirmação positiva, convindo uma abordagem responsável, ao estarem em posse de uma radiografia consentânea e mais fidedigna no plano efectivo das valências e das capacidades técnicas, que em boa verdade o País,  afinal de algum modo sempre possuiu, ainda que por vezes sonegado, e propositadamente destratado, no entanto, (diante de vontade política), e sempre que convenientemente motivado e valorizado, poderá ajudar a transformar e a desbloquear e a atingir este desiderato, que irá corresponderà à plena satisfação e integração dos níveis de desenvolvimento e de progresso humano e social.
Por último, e na confirmação de um tema referido em destaque nas linhas de força, no caso, o Turismo, que nos parece e se afigura igualmente caro na apreciação para um grupo de especialistas, nos quais se enquadram os pilotos e profissionais do fórum aeronáutico, pelas múltiplas razões de natureza e do conhecimento, desde o integral domínio e noção geográfica e do cadastro, e das tendências e das leituras do fluxo das migrações e das trocas comerciais de bens e serviços, quer no âmbito nacional, regional e internacional, e dos pontos de estrangulamento na visão já experimentada e dos processos actuais, e de outros interesses fulcrais, no quadro da atracção, e do incentivo e de exploração desta fonte moderna de renda, na balança de pagamentos dos países.
Osvaldo Mendes 
O OUTRO LADO DA POLÍTICA…
E PORQUE NÃO?
B.D – Bloco Democrático, sólido e mais esclarecido na briga por um espaço no cenário político angolano, está empenhado na recuperação do espaço conquistado nas primeiras eleições de 1992.
É no Bloco Democráticoque todos se lembram quando é preciso um perfil de excelência para o país! Desde que Angola ascendeu à independência de forma abrupta que o país começou a divergir internamente, precisando, obviamente de justiça e estabilidade política.  Passados 40 anos de desgovernação – ausência de respeito pelo próximo, desigualdade, niilismo, corrupção, utilização abusiva do erário público – estão criadas as condições objectivas e subjectivas para que haja uma correlação directa entre a instabilidade política e o crescimento. O cenário político angolano está claro, admitindo nos próximos tempos a existência de apenas três fortes partidos, nomeadamente MPLA,UNITA e CASA – CE que irá obviamente, evoluir com o consentimento dos pequenos partidos integrantes, em partido uno. Porém, não anulamos a possibilidade de cisão ou fraccionismo no interior dos partidos mencionados, assim como, admitimos a aproximação da CASA-CE e do Bloco Democrático, que faria deles uma força política com maior representatividade e mais elegível. Não obstante, o resquício tribal e niilismo encobertos da CASA-CE, o Bloco Democrático integraria a mesma, pois, a primeira é portadora de maior grandeza e assentos no Parlamento; a segunda é portadora de uma grande carga intelectual e de um traquejo político que a primeira não pode desperdiçar ou desprezar. A confirmar-se, só o país ganharia. Qualquer quarta força no cenário político angolano será residual.
Francisco Rasgado / Babalada

Jornal ChelaPres
A MÃE DE BENGUELA
Esperança Lima Coelho de Vilhena, carinhosamente conhecida por “panchita” morreu em Benguela, no dia 25 de Março de 2017, justamente no dia do seu aniversário natalício, e foi a enterrar no dia 28 de Março de 2017, no cemitério da Camunda. O seu soberbo e exuberante funeral foi marcado por uma pléiade de familiares e amigos provenientes de várias latitudes, que fizeram questão de prestar a última homenagem àquela que foi em vida a Mãe de Benguela. Foram várias as instituições do Estado angolano e da sociedade civil benguelense que perante o corpo de Esperança Lima Coelho e na presença de Eduarda Silvestre Magalhães e do seu filho maior, Matias Lima Coelho “General N’Zumby” homenagearam com mensagens de solidariedade e condolências à malograda.
ELOGIO FÚNEBRE
“O MEU AMOR DA RUA 11”
A MAIOR DE TODOS
Há um cartoon que mostra a chegada de Esperança Lima Coelho de Vilhena ao céu, justificando a sua morte, no sábado passado, dia 25 de Março, depois de 89 anos de vida (feitos no dia da sua morte).
À frente de um desenho do mundo, diz Deus: “vou acabar com tudo no dia 25… Quero que você faça um novo projecto”. Desenhar um novo mundo, mais bonito e solidário, com aqueles traços e curvas que deixou espalhados pela cidade de S. Filipe de Benguela. Mas, sobretudo, tentar inventar um sítio melhor para vivermos, porque, como nunca se cansou de repetir, “o mais importante não é o cargo político, empresarial ou governamental, mas a vida, os amigos e este mundo injusto que devemos modificar”.
Não foi difícil, depois da morte de Esperança Lima Coelho de Vilhena, encontrar citações fortes. Era assim Esperança Lima Coelho de Vilhena, natural do Bairro Benfica, berço da intelectualidade benguelense,nascida aos 25 de Março de 1928, filha de Tomás Lima Coelho e de Júlia,símbolo de humanidade e humanismo, Mãe das mães de Benguela, Mãe de metade dos filhos da cidade de S. Filipe de Benguela e madrinha de outra metade, Musa do poeta maior de Benguela – Aires de Almeida Santos, A mulata mais bonita e cobiçada de Benguela antiga, são alguns títulos atribuídos a Esperança Lima Coelho de Vilhena. Para a história, era uma humanista e solidária da melhor estirpe. Entre os inúmeros gestos de solidariedade de Esperança Lima Coelho está a adopção de dezenas de filhos, sobrinhos, netos e a ajuda a várias famílias humildes de Benguela.
Há digitais de Esperança Lima Coelho espalhados por algumas acções mais nobres nas últimas décadas coloniais, como a adopção de Matias Lima Coelho “general N’Zumby”, ascendência completa de seu irmão “Caniço”, o baptismo de Asdrubal Costa, Francisco Rasgado, Eduarda Silvestre Magalhães, Dionísio Rocha, Carla Ramos Williams, Maria Rasgado, Carlos Lamartine, Gregório Mulato, Vate Costa, Gabriel Filipe Amado, Adelaide Rasgado, Mário Leite e tantos outros.
A sua grandeza, incontornável no quadro do crescimento de Benguela, faz com que ela seja recordada com uma estátua e uma rua com o seu nome.
Que a sua alma descanse em paz e o seu nome presente na vida de todos os benguelenses.
Benguela aos 28 de Março de 2017
A Família  





quarta-feira, 26 de abril de 2017

Breves aparas de contentamento



Enviou-me João Sena o seguinte email, que, naturalmente me deixou agradecida e feliz, por tão belo retrato do nosso país de trambolhões nas suas políticas, nos seus endividamentos, no exíguo da sua educação, manifesto sobretudo na taxa ainda elevada de analfabetismo relativamente aos demais países europeus. E no entanto, também concordo com a teoria da advogada brasileira Ruth Manus de que «o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal», o país dos diminutivos, da indecisão, mas do “bom rapazismo”, da sã camaradagem, da entreajuda que já Nicolau Tolentino apontava na sua Sátira “A Função” «Em que as vizinhas vão / Pedir às vizinhas lume» e Guerra Junqueiro traduzia essas características de harmonia e bondade do povo simples no seu encantador poema d’ «Os Simples», “A Moleirinha”, que outrora se lia nos primeiros anos escolares e mais tarde foi musicada:
Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume...
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume...

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, p’rà fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!

Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus...

Toc, toc, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!
 Guerra Junqueiro (1850 -1923)

É certo que hoje já dificilmente o quadro da moleirinha penetrará nas sensibilidades de uma juventude de estardalhaço e outros condimentos deformadores dos sentimentos tradicionais, substituídos quantas vezes por uma maior grosseria nos costumes. Mas a frieza e solenidade altiva de outros povos mais condimentados intelectualmente, como diz Ruth Manus, talvez não perdessem, se olhassem para este povo do sul que, na sua história conturbada, afinal sempre se regeu por sentimentos valorosos de destemor e amor também - por esfarrapado que fosse. E hoje, é certo temos uma grande dívida, mas foi enorme o progresso, - prova de que mesmo os governantes que vamos progressivamente condenando ou defendendo, bastante esforço fizeram para o concretizarem.

Assunto:  Opinião de uma moça advogada do Brasil, sobre Portugal
Coisas que o mundo inteiro deveria aprender com Portugal
26/11/2016
Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.
Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas: ingratidão e pessimismo. Sou incuravelmente grata e otimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui- embora pareça-me que muitos nem percebam.
Não estou dizendo que Portugal seja perfeito. Nenhum lugar é. Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém. Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente. Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.
Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses. Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém. Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata. Os ingleses aprenderiam tudo do zero. Bacalhau e pastel de nata? Não. Estamos falando de muito mais. Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles.
Mais do que isso, o mundo deveria aprender a se relacionar com a terra como os portugueses se relacionam. Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima. Saber que o porco é alentejano, que o vinho é do Douro. Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajeto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil.
O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses. A história da quinta do avô, as origens trasmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó. O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos. E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes.
O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e a afeto que têm os portugueses.
De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem. O deputado Jair Bolsonaro, que defende ideias piores que as de Donald Trump, emergiu como piada e hoje se fortalece como descuido no nosso cenário político. Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal. Os portugueses- de direita ou de esquerda- não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam.
Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos. Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afeto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.
Todo país do mundo deveria ter uma data como o 25 de abril para celebrar. Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia. Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa.
Todo idioma deveria carregar afeto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal carrega. Gosto de ser chamada de miúda. Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de putos. Gosto do uso constante de diminutivos. Gosto de ouvir “magoei-te?” quando alguém pisa no meu pé. Gosto do uso das palavras de forma doce.
O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses -embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse país do que costumam ter. Portugal usa suas melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las. A arrogância que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.
O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe. Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos. Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.
Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal. Essa sorte, pelo menos, nós brasileiros tivemos.

Ruth Manus é advogada e professora universitária e assina um blogue no Estado de São Paulo,
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terça-feira, 25 de abril de 2017

Vanitas Vanitatum…



Um Diário encolhido em extensão, Vasco Pulido Valente nos oferece agora, limitando-se a lançar algumas chispas do seu muito saber, favorecido pelo seu muito engenho certeiro no desmascarar das torpezas que vão abrilhantando as relações cínicas entre os povos. Uma lógica bastante esclarecedora, e temos pena que não chegue aos olhos de Donald Trump e seus congéneres, presentes e passados. É certo que Trump, vaidoso que é, não gostaria de ser equiparado a nenhum mais, superior a todos, e em vias de produzir, talvez, qualquer coisa de muito estrondoso, se o da Coreia do Norte não parar de fazer ameaças à distância, dois galos emproados indiferentes ao resto dos mortais, um vaidoso do seu “condomínio fechado”, onde uma extraordinária coesão e harmonía, medidas ao milímetro, transforma uma parada militar em espectáculo surreal de robots humanos comandados electronicamente, o outro, orgulhoso do seu poderio, num país desde sempre dominando nos vários campos produtivos, e neste momento - quem sabe? - julgando-se dono do mundo e fazendo ameaças.
 Entretanto, o seu antecessor Obama, vai preparando os jovens, estimulando-os na ambição de futuros próximos mentores da humanidade, criando mais robots articulados, sem outros valores que não sejam esses de governar um dia, cada vez mais cedo…
E porque não? Restarão sempre os poetas, a lembrar valores, ou a qualificar acções. Leiamos António Nobre, para descontrair, enquanto pudermos:

Vaidade, Tudo Vaidade!
Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a glória, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguém me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, vê lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?


António Nobre, in 'Só'


O Diário de Vasco Pulido Valente
O Ocidente e o mundo muçulmano
OBSERVADOR, 23/4/2017
…hopes expire of a low dishonest decade… (A. H. Auden)

Dar um pontapé num formigueiro é uma estratégia? Em princípio, parece que não é. Mas que tem feito o Ocidente, senão isso? E, quando falo do Ocidente, falo da Inglaterra, da França e da América. Desde a primeira invasão do Iraque à chamada “Primavera Árabe” as velhas potências coloniais e a nova potência “global” não perdem uma oportunidade para influenciar, ou mesmo dirigir, o mundo islâmico. Ora esse mundo islâmico, de fora tão simples, está em guerra consigo próprio, para defender ou fortalecer as suas posições em África e no Médio Oriente e por razões religiosas que, às vezes, não se distinguem muito de razões políticas e militares. E por isso o Ocidente não sabe ao certo quem são as suas vítimas e menos quem a prazo vai beneficiar ou prejudicar. Não admira que quase todos os grupos de muçulmanos odeiem imparcialmente a Europa e a América e uma civilização inconciliável com a deles. Nós podemos ver alguma diferença entre Nova York e Paris, ou entre Paris, Dortmund e Estocolmo. Eles não vêem nenhuma; vêem só a rejeição das regras e preceitos estabelecidos pelo Corão e das tradições de catorze séculos. Quando Trump ataca a Síria com 59 mísseis Tomahawk ou os jihadistas do Afeganistão com a MOAB não inaugura um novo método para reagir às perturbações do Islão. Embora com mais brutalidade, segue o exemplo de dúzias de “estadistas” da Europa e da América.
A Direita segundo Cristas
A dra. Assunção Cristas declarou a semana passada ao Expresso que não queria, e não faria, uma aliança eleitoral com o PSD em 2019. Acha ela que não vale a pena contar com as vantagens que o sistema de Hondt dá às coligações; e que o CDS e o PSD crescendo separados terão mais votos do que juntos. De resto, a dra. Cristas já se candidatou à Câmara de Lisboa, sozinha contra mundum. O pior é se ninguém dá pela sua fascinante personalidade e pela sua notória competência para dirigir uma Câmara. Ou se, em geral, o CDS descer nas autárquicas. Ou até, por absurdo, considerando a sua vacuidade ideológica e doutrinal e principalmente a sua fraqueza, o CDS desaparecer em fumo à medida que as eleições se aproximarem. Sendo chefe de uma pequena patrulha (com novos dirigentes que Portas recrutou), a dra. Cristas devia perceber que, em última análise, a sobrevivência do seu partido depende da unidade da direita, porque só ela lhe dará força para um papel importante na política portuguesa. A afirmação da duvidosa personalidade do partido talvez lhe traga alguma popularidade interna. Nada mais. Cá fora, a esmagadora maioria dos portugueses não se interessa pelo que sucede ou deixa de suceder no Largo do Caldas. E ainda por cima Cristas não é e nunca será o dr. Paulo Portas.